[{"jcr:title":"O saber indígena como base para empreendimentos comunitários","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/sustentabilidade","cq:tags_1":"area-de-conhecimento:políticas-públicas","cq:tags_2":"tipos-de-conteudo:acontece-no-insper","cq:tags_3":"tipos-de-conteudo:acontece-no-insper/internacional"},{"richText":"A professora Ana Maria Peredo, da Universidade de Ottawa, defende um caminho alternativo de desenvolvimento econômico orientado pelo respeito ao bem coletivo","authorDate":"30/03/2026 14h56","author":"Leandro Steiw","madeBy":"Por","tag":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/sustentabilidade","title":"O saber indígena como base para empreendimentos comunitários","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"A professora Ana Maria Peredo, da Escola de Administração Telfer, da Universidade de Ottawa, no Canadá, foi a  [palestrante](https://www.youtube.com/live/9Ms4iN7qjmg)  do sexto dia do evento  [São Paulo School of Advanced Science in Systems Change and Sustainability](https://www.insper.edu.br/pt/eventos/2025/12/school-of-advanced-science) , realizado em dezembro de 2025 no Insper com o apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Os temas foram empreendimentos comunitários, conhecimento indígena, mudança sistêmica e o futuro da vida coletiva. Ana Maria contou histórias que representam os desafios do processo de colonização, descolonização e recolonização de povos indígenas pelo mundo, especialmente no Peru e no Canadá, onde ela realiza a maioria das suas pesquisas. A linhagem materna da professora é originária da região de Piura, no norte peruano. Nos anos 1970, a comunidade Los Tallanes foi removida de suas casas para a construção de uma represa, que inundou toda a área. Foi nessa ocasião, que, ainda criança, participou de sua primeira assembleia comunitária, na companhia da mãe. A preocupação principal dos moradores era em relação ao afogamento dos seus ancestrais, que haviam vivido e estavam enterrados lá, recorda Ana Maria. Uma das pessoas disse então: “Eles vão afogar o nosso rio mãe”. No fim, o território foi inundado em nome do crescimento econômico. “Quais foram as consequências? Eles perderam a identidade, a comunidade, a biodiversidade”, afirmou ela. “E isso está acontecendo em muitos outros lugares. Há toneladas de literatura sobre pessoas sendo deslocadas. Em nome do crescimento econômico, alguém mais está se beneficiando, não os próprios povos indígenas. Eles estão sendo sacrificados.” Em março do ano passado, Ana Maria voltou ao Peru para uma viagem de campo. Em uma pequena cidade, viu muitas pessoas idosas nas ruas, uma cena que, embora não incomum, chamou demais a sua atenção. Era uma amostra da transformação econômica e social que ocorrera em Cocha entre 1997 e 2025. Parte do espírito coletivo fora rompido. No final do século passado, Cocha havia construído o maior mercado semanal de alimentos e produtos locais dos Andes, a 3,4 mil metros acima do mar. Essa grande feira era o resultado de quase uma década de reorganização da comunidade em torno da sua praça central. Na época, o Peru ainda estava marcado pelos anos de conflito entre o exército e o movimento guerrilheiro Sendero Luminoso, que matou muitos indígenas. Ana Maria já havia aprendido, como estudante de Antropologia, que essas comunidades têm sistemas complexos de reciprocidade e solidariedade, e que a economia está inserida nesses rituais e cerimônias. Em assembleias, os peruanos observavam tudo o que estava acontecendo e trabalhavam juntos para resolver os problemas. “Em 1997, comecei a observar como eles estavam reivindicando novamente o seu modo de vida indígena e retornando para reconstruir as suas comunidades, as suas pontes, as suas praças e a sua vida econômica também”, disse a professora. Segundo a palestrante, o empreendimento comunitário trata-se de desenvolvimento nos termos de quem vive na própria terra. A ideia repete-se em comunidades indígenas pelo mundo afora. Em Cocha, os moradores se envolveram em atividades diversas, como mineração, fábricas administradas por trabalhadores, mercados, produção de queijo e criação de gado. Com o dinheiro da grande feira semanal, construíram centro de alimentação, farmácia e escola, e montaram uma estrutura que apoiava as tradições locais. As assembleias dos empreendimentos comunitários, conhecidas como CBE (Community-Based Enterprise, em inglês), são definidas como um caminho alternativo para o desenvolvimento. “Os povos indígenas ao redor do mundo estão lutando pelo direito de se desenvolver à sua maneira”, explicou Ana Maria. “É uma forma de empreender feita por e para comunidades indígenas, enraizada na solidariedade e nas formas complexas de entender o que é comunidade e o que é economia. A comunidade é a empreendedora, não os indivíduos. Uma vida de equilíbrio está entre o individual e o coletivo. E há muitos benefícios: segurança alimentar, criação de empregos, democracia cívica. Essa é uma estratégia para a sustentabilidade local.” Segundo a professora, as habilidades comunitárias não vêm de fora, mas são construídas a partir dos recursos que as pessoas já têm e que devem ser mobilizados. “Há objetivos espirituais, culturais e políticos, e tudo isso está incorporado nas estruturas sociais e culturais”, disse ela. “E há transmissibilidade: outras comunidades observam isso como uma estratégia. São muitos casos de sucesso no Reino Unido, no Canadá, na Alemanha, na Nova Zelândia, no México, no Brasil, na Índia e na Itália, entre outros. As pessoas estão escrevendo teses e artigos sobre tudo isso, sobre empreendimentos de base comunitária. A literatura está crescendo desde 2006.” Por trás desses empreendimentos, está a orientação comunitária — resumidamente, o senso de que você pertence a um organismo e de que você não está saudável se esse organismo não estiver saudável. “É o senso de interdependência”, afirmou a professora. “As pessoas vão à assembleia e discutem o que está acontecendo na comunidade. Depois têm um corpo executivo e um conselho de controle para garantir a prestação de contas. E têm um sistema de produção, distribuição, consumo e desenvolvimento como comunidade.” O empreendedorismo individual Existe no Peru, desde a década de 1960, a garantia constitucional de que a terra indígena não pode ser tocada. As comunidades receberam títulos de propriedade das terras, mas sempre houve pressão governamental contra esse direito. “A comunidade de Cocha, ao longo de todo esse tempo, continuou a manter a vida coletiva”, disse Ana Maria. “Mas, nos últimos anos, houve muita promoção do empreendedorismo individual nas escolas. Os jovens aprendem empreendedorismo individual nos cursos de Administração e voltam dizendo que deveríamos fazer as coisas de forma diferente.” Então, finalmente, a comunidade decidiu privatizar alguns serviços públicos em 2024. Para Ana Maria, certas implicações já são perceptíveis, como o enfraquecimento da reciprocidade no trabalho coletivo. “Os sinais sociais, econômicos e ecológicos estão interligados”, afirmou. “E, ao longo dos anos, vi as famílias com muita vergonha de trabalhar em solidariedade pela terra. Tudo isso só porque os jovens simplesmente não querem mais participar. Há uma ruptura do cuidado ritual e espiritual pela terra. E o ritual é o que aproxima as pessoas.” A professora complementou: “No CBE, o cuidado se estende para os mais velhos, para a natureza e para a gestão comunitária. Com a empresa privada ganhando domínio, o cuidado gradualmente se volta para dentro, em direção ao lucro acima do bem coletivo. É por isso que vemos tantos idosos fora da comunidade e nos arredores da cidade. Um aspecto importante do CBE é justamente possibilitar a ação coletiva. Diminuindo a capacidade de resposta rápida, quando algo acontece as pessoas não conseguem reagir como antes. Essa fragmentação também torna a posse comunitária da terra mais vulnerável à venda, ao aluguel ou à exploração por estranhos. A reciprocidade é substituída pelo interesse próprio — que sempre esteve ali, mas agora predomina”. Na opinião da professora, a divisão geracional é visível atualmente. Os jovens são socializados em valores orientados ao mercado. Ao mesmo tempo, os aposentados estão sendo pressionados a vender suas casas e acabam na cidade vizinha vendendo doces ou outras miudezas. “Isso é trágico”, afirmou Ana Maria. “Existe mais do que desigualdade social. Agora há erosão política, social e econômica. Uma economia comunitária organizada em torno do florescimento coletivo está sendo reorganizada em torno do lucro, o caminho ‘mainstream’. Não se trata de rejeitar o empreendimento ou o progresso. Trata-se de perguntar o que perdemos quando a ética coletiva, o cuidado e a interdependência são corroídos.” Desde 2009, Ana Maria está envolvida em um projeto com as comunidades Turtle, no Canadá. Até então, os jovens estavam indo para a cidade grande, desinteressados em ser indígenas. Uma série de vídeos participativos nos quais os mais velhos contaram suas histórias reaproximou os jovens das suas culturas e os reconectou ao modo de vida dos seus ancestrais, num processo de descolonização, segundo a professora. Ela acredita que os esforços de reconciliação feitos no Canadá, embora não tenham eliminado as tensões e a discriminação contra os povos indígenas, podem ser replicados no Peru e em outros países. Para Ana Maria, ainda que cheios de imperfeições, estamos caminhando nessa direção, desde que uma mudança sistêmica aconteça: “A pior forma de colonização é a colonização das nossas mentes. Isso exige descolonizar a forma como todos nós pensamos sobre economia, sucesso e o que significa viver bem juntos”."}]