[{"jcr:title":"Mulheres em STEM: desafios e caminhos para a equidade","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/diversidade","cq:tags_1":"area-de-conhecimento:tecnologia","cq:tags_2":"area-de-conhecimento:engenharia","cq:tags_3":"area-de-conhecimento:ciência-da-computação"},{"richText":"Apesar dos avanços, as mulheres ainda são minoria na área, e Graziela Simone Tonin, professora do curso de Ciência da Computação do Insper, defende a intencionalidade para transformar esse cenário","authorDate":"18/08/2025 09h52","author":"Michele Loureiro","madeBy":"Por","tag":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/diversidade","title":"Mulheres em STEM: desafios e caminhos para a equidade","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"azul marinho / botao vermelho / tag amarelo"},{"themeName":"azul marinho / botao vermelho / tag amarelo"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"A participação feminina nas áreas de STEM — sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática — ainda enfrenta desigualdades estruturais no Brasil e no mundo, apesar dos avanços recentes. Segundo o Fórum Econômico Mundial, levaríamos cerca de 300 anos para atingir a plena igualdade de gênero. No recorte específico das áreas de STEM, a distância é ainda mais gritante. De acordo com dados da ONU, apenas 35% das matrículas nesses cursos são de mulheres.   Outros dados ajudam a entender o cenário. Um levantamento da Unesco revela que menos de 30% dos pesquisadores científicos no mundo são mulheres. No Brasil, esse número melhora, mas ainda está longe do ideal: 45% das bolsas de iniciação científica do CNPq são concedidas a mulheres, enquanto elas representam apenas 28% dos bolsistas de produtividade em pesquisa, cargos mais elevados na carreira científica.   Essa discrepância se reflete também no mercado de trabalho. De acordo com um levantamento da Brasscom (Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação), apenas 20% dos profissionais que atuam em tecnologia no país são mulheres. Em campos estratégicos como inteligência artificial e liderança em tecnologia, a presença é de 22% e 11%, respectivamente. E mesmo em ambientes acadêmicos, onde há maior pluralidade, a presença feminina tende a se reduzir nas posições de liderança ou em áreas consideradas tradicionalmente masculinas, como engenharia e computação.   Para  [Graziela Simone Tonin](https://www.insper.edu.br/pt/docentes/graziela-simone-tonin) , professora do Insper e coordenadora do curso de  [Engenharia de Computação](https://www.insper.edu.br/pt/cursos/graduacao/engenharia/engenharia-de-computacao) , que tem se dedicado a discutir a presença feminina nas áreas de Exatas, tanto na sala de aula quanto em projetos institucionais, essa desigualdade não nasce na universidade ou nas empresas: apenas se perpetua e se potencializa. Ela avalia que o problema começa na infância, quando meninas deixam de ser incentivadas a explorar matemática, ciências ou tecnologia.   Estudos mostram que, por volta dos seis anos, muitas garotas já internalizam a ideia de que “isso não é para elas”. O relatório do PISA (OCDE) de 2018 revelou que, aos 15 anos, apenas 7% das meninas desejam seguir carreira em ciência ou engenharia — ante 15% dos meninos. “E mesmo quando esse interesse existe, a ausência de modelos femininos nas escolas, livros e na mídia dificulta que essas aspirações se sustentem”, diz Graziela, ponderando que também falta uma estrutura social e que professores não estão bem preparados para contribuir para a redução dessa desigualdade e para o despertar do interesse das estudantes nessas áreas.   Para a professora, a exclusão não é explícita, mas é estrutural. Ela começa cedo, com a falta de estímulo e de representatividade nos materiais didáticos e nas falas de professores, e vai se consolidando ao longo da trajetória educacional. No ensino superior, os ambientes nem sempre são acolhedores para mulheres, que enfrentam invisibilidade, microagressões, isolamento ou dúvidas constantes sobre sua competência. “No mercado, elas ainda precisam provar o tempo todo que são capazes, enfrentando desconfiança, sobrecarga emocional e estruturas que não consideram realidades como a maternidade, o racismo ou a desigualdade de renda”, diz Graziela.   Esse ciclo se perpetua também porque as posições de poder e tomada de decisão continuam majoritariamente masculinas, e a baixa presença de mulheres em cargos de liderança compromete a construção de políticas mais inclusivas, dificulta a representatividade e mantém o chamado “efeito Matilda”: o apagamento histórico das contribuições femininas para a ciência e tecnologia.     Trajetória marcada por resistência e construção coletiva Com doutorado em Ciência da Computação e mais de 20 anos de experiência na área, Graziela reconhece que sua trajetória foi marcada por episódios de invisibilização e subestimação de sua competência. “Foram várias situações em que minha opinião técnica era desconsiderada ou tratada com surpresa por colegas, como se eu precisasse provar o tempo todo que sabia o que estava dizendo”, lembra.   Apesar disso, ela destaca a importância de encontrar redes de apoio — dentro e fora da academia — para permanecer na carreira. “O que me manteve foi a convicção de que eu podia ocupar aquele lugar e a consciência de que, ao persistir, eu abriria espaço para outras mulheres também.”     O papel das instituições de ensino na mudança Embora a presença feminina no ensino superior brasileiro seja majoritária — elas representam 57% dos matriculados, segundo o Censo da Educação Superior (Inep, 2023) —, a concentração continua desigual entre as áreas do conhecimento. Em cursos como Enfermagem e Pedagogia, mulheres são ampla maioria; já em Engenharia Mecânica, Elétrica ou Ciência da Computação, representam menos de 15% dos alunos em muitas universidades.   “Não se trata apenas de ‘trazer’ meninas para essas áreas, mas de transformar o ambiente para que elas queiram e possam permanecer. Isso inclui práticas pedagógicas inclusivas e a revisão de currículos.” Para Graziela, as microagressões e ações derivadas de vieses inconscientes muitas vezes passam despercebidas por quem as pratica, mas causam danos profundos a quem as recebe.   Ela defende que a equidade de gênero seja entendida como uma responsabilidade coletiva, e não apenas como uma pauta feminina. “Quando incluímos mais mulheres em STEM, ganhamos diversidade de pensamento, inovação e soluções mais abrangentes para os desafios da sociedade”, diz.     Avanços e próximos passos O Insper tem adotado uma série de medidas para aumentar a diversidade nos cursos de engenharia e tecnologia, incluindo programas de bolsas para estudantes de baixa renda, mentorias específicas para alunas e incentivo à participação de docentes e pesquisadoras em projetos interdisciplinares. A instituição também promove eventos e campanhas de conscientização sobre o tema, envolvendo alunos e professores.   A equidade de gênero em STEM é um compromisso institucional no Insper. O  [Núcleo de Estudos de Gênero](https://www.insper.edu.br/pt/pesquisa/centro-de-gestao-e-politicas-publicas/nucleo-de-estudos-de-genero)  (NEG) desenvolve o projeto nacional Empoderando Futuros, com apoio do CNPq, que busca atrair, reter e impulsionar meninas e mulheres em ciência e tecnologia, com foco em interseccionalidade (gênero, raça, território). “Atuamos com escolas, universidades, empresas e organizações sociais para mapear boas práticas, construir soluções escaláveis e fortalecer redes de apoio e mentoria. Somos um time de 23 pesquisadores e pesquisadoras de 15 instituições, englobando todas as regiões do Brasil”, explica.   Outras iniciativas reforçam esse compromisso na escola: entre elas, a série  [#InsperMulheres,](https://www.linkedin.com/search/results/all/?keywords=%23inspermulheres&origin=HASH_TAG_FROM_FEED&sid=Kn.)  o programa  [Women in Action ](https://www.insper.edu.br/pt/hub/women-in-action) e a realização do  [STEM Women Congress Brasil](https://www.insper.edu.br/pt/conteudos/politicas-publicas/insper-sedia-a-primeira-edicao-do-stem-women-congress-no-brasil) , que teve sua primeira edição sediada no Insper em 2025 e contou com o lançamento de um relatório inédito sobre a presença feminina nas áreas tecnológicas no país.   Vale destacar também a atuação da Rede de Afinidade de Gênero, um espaço adotado pelo Insper e pela área de Diversidade para discutir, acolher e fortalecer a pauta de gênero dentro da escola. Seu objetivo é tornar os ambientes da instituição mais humanos e inclusivos, ampliando a participação de mulheres — colaboradoras, alunas e visitantes — na faculdade, aumentando o grau de conscientização em relação à diversidade. Adicionalmente, a Rede apoia outras frentes e entidades que também promovem ações com propósitos similares.   Embora reconheça os avanços, Graziela alerta que ainda há um longo caminho a ser percorrido. “Precisamos discutir assédio acadêmico, desigualdade na progressão de carreira, distribuição de tarefas administrativas e reconhecimento de autoria em pesquisas. São temas que impactam diretamente a permanência e o avanço das mulheres em STEM.”   Para ela, mais do que inspirar, é preciso garantir condições materiais e simbólicas para que as mulheres estejam onde quiserem. “Não se trata de exceção ou superação individual, mas de transformação coletiva. E isso só é possível com intencionalidade, coragem e compromisso das instituições”, conclui."},{"jcr:title":"Professora Graziela Simone Tonin","fileName":"Graziela Tonin 042bx.jpg","alt":"Professora Graziela Simone Tonin"}]