Ler a política para entender os caminhos do mercado

Executivos precisam entender a confusa lógica institucional brasileira para tomar melhores decisões

A vida política brasileira já serviu de mote para a campanha da série House of Cards, da Netflix, na qual um dos personagens reclama da dificuldade de a ficção competir em desvantagem com a realidade de Brasília. O cenário, de fato, é de instabilidade. O Congresso aprovou o impeachment da presidente Dilma Roussef há um ano, o vice-presidente empossado Michel Temer está no meio de um escândalo disparado pela delação dos irmãos Joesley e Wesley Batista, e não há semana desde então sem que uma novidade negativa apareça na imprensa, em um país dividido nas ruas. Como empresários e CEOs podem conduzir suas empresas em um mar tão revolto?

“A presença do Estado é tão grande no país que quando ele fica parado acaba travando toda a economia”, afirma o engenheiro e professor do Insper Milton Seligman, que ocupou vários cargos públicos ao longo do governo Fernando Henrique Cardoso.

“Muitos setores do mercado acreditam que a lógica econômica dá o tom das decisões no país”, acrescenta o cientista político Carlos Melo. “Mas em geral os grupos reagem não de acordo com a racionalidade, mas pela força política que possuem.” Melo explica que há questões estruturais da política brasileira que precisam ser resolvidas para que se tenha um ambiente político favorável ao desenvolvimento. “O problema não é econômico”, pontua o professor do Insper.

Administração de riscos

O professor Sandro Cabral lembra, ainda, que “é preciso trabalhar na direção da redução de riscos, estabelecer a noção de protocolos”. Pesquisador da eficiência em serviços públicos, ele ressalta que é importante analisar quando o estado é um gerador ou atenuador de riscos. E usa como exemplo as atuações dos órgãos de controle. “Hoje, alguns órgãos de controle, por exemplo, atuam de forma independente e sem coordenação, muitas vezes avançando sobre atribuições uns dos outros”. Para Cabral, isso é um grande fator de incerteza, que gera questionamentos e, por consequência, riscos para as empresas.

O modelo institucional brasileiro e seus grupos de pressão, como os de integrantes de carreira de Estado, como juízes e promotores, por exemplo.

Para Melo, o risco também ocorre quando os princípios da razão econômica não são capazes de se sustentar no campo político. “É importante olhar para nosso sistema político e saber do que ele é capaz”, diz. “Em outras palavras, é preciso entender a índole da maioria, que pode ser um horror, mas não é surpreendente.” Como afirma Seligman, “no Brasil, é preciso saber ler a política para entender o caminho do mercado”.

Para ler o cenário

Para ajudar executivos a identificar o que é preciso entender do governo e os fatores de risco institucionais, o Insper desenvolveu o curso Riscos Políticos, de Educação Executiva. Realizado em parceria com a Eurasia Group, a maior consultoria de risco do mundo, o objetivo do curso, que acontece no final de julho, é mostrar a complexidade da questão política, identificando questões estruturais para que se possa compreender a conjuntura.

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