Cultura de preservação do patrimônio histórico brasileiro precisa ser incentivada

Órgãos reguladores se reuniram no Insper para discutir como mudar a percepção da sociedade e dar nova vida para imóveis tombados

Patrimônio histórico é todo lugar que carrega importância social, cultural, econômica e científica. No Brasil, dois bons exemplos são o Centro Histórico de Salvador (BA) e o Parque Nacional Serra da Capivara (PI). Porém, nem todo brasileiro consegue atribuir essa importância a tais localidades.

“A grande dificuldade que nossas cidades têm de manter um patrimônio histórico é que não temos uma cultura de preservação”, conta Cyro Laurenza, presidente do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp).

Para reverter esse cenário, o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, que reúne 23 órgãos reguladores, vem apostando em alternativas de conscientização. E uma das formas encontradas foi debater o assunto com entusiastas, como ocorreu no evento realizado no dia 28 de junho no Insper.

O debate Patrimônio em Debate: Políticas Públicas de Preservação teve como objetivo identificar modelos de ação que podem realmente impactar a cidade.

Panorama brasileiro do patrimônio histórico

“O Brasil é um dos países mais urbanizados do mundo. Em 1964, 50% do território já tinha sido tomado. Hoje, a nação está à frente dos Estados Unidos. Isso faz com que o país sofra com alguns problemas, já que abriga muitas pessoas em pequenas áreas. Um deles é o tráfego intenso. O outro, a moradia”, diz Edward Glaeser, professor de economia na Universidade Harvard.

Com a demanda crescente por espaço urbano, os patrimônios históricos entram em cheque: até que ponto é relevante mantê-los intocáveis? Ao preservar uma área, o metro quadrado se torna caro e expulsa pessoas da região.

Na contramão, ao optar pelo tombamento, o local é desvalorizado. “Em São Paulo , os bairros Barra Funda, Centro, Campos Elíseos e Luz estão tombados e esfarelando”, comenta Raul Juste Lores, repórter especial da Folha de S.Paulo.

Para Lores, os órgãos deveriam se preocupar mais com a preservação no longo prazo. “Após tombar um patrimônio, é necessário pensar em qual será seu propósito. O Brasil é um país que costuma restaurar o mesmo bem cerca de três vezes sem nunca ter ideia de como irá usá-lo”, afirma.

Tombado X preservado

No Estado do Rio de Janeiro, entretanto, algumas ações estão mudando esse rumo e focando em melhorias no futuro. Uma delas é o Centro Carioca de Design (CCD), que funciona na Casa de Bidu Sayão, na Praça Tiradentes. Sua localização no centro histórico da cidade integra a proposta de dinamizar o patrimônio por meio de iniciativas que estimulem o pensamento urbano por meio do design.

Vale lembrar que a proposta só pôde entrar em vigor porque o local é preservado, e não tombado. “A diferença é que, quando um patrimônio é preservado, ele mantém sua fachada e o aspecto urbano, mas seu interior pode ser transformado de uma maneira mais contundente”, explica Washington Fajardo, ex-presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH).

Fajardo, inclusive, defende que os patrimônios deveriam ser todos preservados. Assim, as modificações não precisariam passar pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural. “Ao pular essa etapa, aceleramos o licenciamento e criamos uma equipe técnica que sabe resolver os ‘pepinos’ de cada imóvel”, revela.

O problema é que não existe uma regulação sobre a preservação de um patrimônio. “Nos reunimos no Condephaat para discutir critérios de tombamento. Em três encontros, acumulamos muitos papéis e regras. Quando fomos procurar os critérios de preservação, entretanto, não encontramos nada”, afirma Carlos Faggin, presidente do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat).

Possíveis soluções

De acordo com Juliana Prata, arquiteta e urbanista do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o ideal seria que existisse no Brasil uma política de tombamento mais criteriosa e uma regulação para a preservação. E ambas deveriam ter a participação da sociedade. “O que não dá é para ficar essa caixa preta entre os órgãos”, diz.

Por falar em sociedade, Fajardo lembra que é necessário fazer com que os brasileiros entendam a importância dos patrimônios. “Nossa tradição é vê-los como sinônimo de algo ruim, por causa de termos um passado escravocrata, injusto e desigual. Entretanto, a memória é uma base fundamental para termos confiança na cidade. O que precisamos é reconquistar essa confiança”, comenta o ex-presidente do IRPH.

 Acesse a apresentação de Washington Fajardo: Políticas de Patrimônio.

Assista ao vídeo do evento na íntegra: