Diferenças no impacto de ter filhos para mães e pais

Enquanto homens são recompensados com melhoria nas perspectivas de emprego, trajetória de carreira de mulheres desacelera

Os impactos das responsabilidades familiares na vida pessoal e profissional de pais e mães ainda são bastante desiguais. Após o nascimento do primeiro filho, em geral, as mães encontram mais dificuldade para trabalhar, enquanto os pais são recompensados com melhores perspectivas em seus empregos. A conclusão é de um estudo feito pela professora Regina Madalozzo, em coautoria com Merike Blofield (University of Miami, EUA).

A pesquisa entrevistou 700 mães e pais com crianças pequenas e residentes em bairros de baixa renda em São Paulo. Publicado na Revista Estudos Feministas, analisa a diferença de gênero no mercado de trabalho, sua relação com as responsabilidades familiares e acesso a creches e pré-escolas para seus filhos nesta classe social.

Entraves para mulheres

De acordo com os resultados apurados, 38% das mulheres casadas que não trabalhavam gostariam de estar empregadas, mas não tinham com quem deixar os filhos ou não conseguiam encontrar emprego.

Entre as mães que não moravam com o companheiro, 57% diziam não encontrar emprego ou não ter acesso a escola ou creche para deixar os filhos e poderem trabalhar.

Já entre os pais entrevistados, a percepção é de melhoria nas relações de trabalho depois do nascimento do primeiro filho, com melhoria em sua perspectiva de empregabilidade e promoção – e consequente aumento de remuneração –, por serem vistos como pessoas mais responsáveis.

Impacto na família

As pesquisadoras avaliam que a dificuldade enfrentada pelas mães para participar do mercado de trabalho tem impacto direto na renda familiar. Por consequência, diminui as chances das família prosperarem, com um provedor em idade ativa a menos para contribuir em casa.

A dificuldade para garantir o cuidado para as crianças e gerar renda também aumenta o estresse e reduz a qualidade de vida das mães. O mesmo não acontece com a mesma intensidade com os pais.

No final, perde também o país, pois as mulheres que querem trabalhar e não o fazem acabam deixando de impactar positivamente a economia.

Solução nas políticas públicas

Um dos pontos apresentados pela pesquisa é de que a falta de creches e pré-escolas com custo baixo ou pagas pelo governo tem um impacto direto na decisão das mães em participar (ou não) do mercado de trabalho.

Sendo assim, além de uma maior participação dos pais nos cuidados com os filhos, o Estado também precisa atuar, com aumento na oferta de vagas em creches em período integral. “Essa política, por si só, já teria um efeito na redução da discriminação por parte dos empregadores ao longo do tempo”, concluem as autoras.

Acesse aqui o estudo completo publicado pela Revista Estudos Feministas: Como famílias de baixa renda em São Paulo conciliam trabalho e família?

O artigo foi tema de matéria na BBC Brasil: Por que ter filhos prejudica mulheres e favorece pais no mercado de trabalho