Educação e desigualdade: experiências do Brasil e Israel em debate

Chairman do Council for Higher Education participou do encontro que reuniu especialistas e interessados em políticas educacionais

De um lado, Israel, um dos países com maior índice de ensino superior, com 46% da população com diploma universitário. De outro, o Brasil, com 14%. O evento “Políticas educacionais e seus impactos na redução de desigualdades: experiências do Brasil e Israel” encurtou a distância de mais de 10 mil quilômetros entre as cidades de São Paulo e Tel Aviv para debater a realidade e as perspectivas da Educação.

Na manhã do dia 25 de setembro, Manuel Trajtenberg, Chairman do Council for Higher Education de Israel, e o professor do Insper Fernando Haddad debateram sobre Educação e o caminho a ser percorrido por todos os agentes educacionais – professores, famílias, instituições e governos –, sob mediação do professor titular da Cátedra Instituto Unibanco, Sergio Firpo.

Pertencimento, potencial e progresso foram as ideias que nortearam a fala de Trajtenberg. O especialista destacou também o quanto a diversidade pode contribuir com o desenvolvimento da Educação, diante das diferentes realidades vividas em seu país e no mundo – éticas, culturais e religiosas, alertando que a manutenção da uniformidade no processo educacional restringe a revolução necessária no ensino.

“É preciso ter uma base forte, que vai além do conhecimento, para pertencer à sociedade. A educação é a porta de entrada para se tornar um cidadão e é necessário ter certeza de que cada criança e jovem atinjam seu potencial máximo. Não dá para apenas apontar o que cada um precisa aprender para progredirmos”, enfatizou Trajtenberg.

Segundo ele, o nível da educação recebida está diretamente ligado a fatores essenciais como qualidade de vida, estrutura familiar, situação financeira. Todos os aspectos da vida são condicionados pela educação e, por isso, a educação torna-se também uma das principais fontes da desigualdade no mundo.

O especialista faz críticas relacionadas com a primeira infância e à fase universitária. Até os seis anos de idade, a criança necessita de ambiente, alimentação e condições adequados para ter um processo de aprendizado sadio. Para isso, é preciso investimentos proporcionais – profissionais bem preparados que façam a conexão da criança com o mundo externo, carga horária que contemple as aptidões a serem desenvolvidas e qualidade do ensino como um todo.

“A meta é conquistar um diploma na fase universitária. É tudo ou nada. Você tem ou não tem diploma. Só que isso tem se tornado obsoleto e estamos no início de uma revolução que exige experimentação nas novas formas de se fazer a educação”, critica. Trajtenberg reforça que há muitos talentos espalhados pelo mundo que precisam ter a mesma oportunidade de estudar, seja em Israel, no Brasil ou outro país.

Realidade brasileira

Atualmente, cerca de 60% dos brasileiros completam o Ensino Médio e cerca de 8 milhões cursam o Ensino Superior. São números crescentes nas últimas duas décadas no Brasil, mas o professor do Insper e ex-ministro da Educação, Fernando Haddad, pontua que há um longo caminho a ser percorrido.

“Ainda teremos a padronização no processo de aprendizagem por algum tempo, com currículo, bibliografia e estrutura física, por exemplo. Mas é preciso que personalidades autônomas, críticas e criativas ganhem cada vez mais espaço”, defende.

Haddad destaca que um dos problemas que o país enfrenta é geracional. As crianças brasileiras são filhas de pais que estão chegando pela primeira vez na universidade. “Sem uma geração formada, o sistema educacional está sobrecarregado em seu atual modelo.

Por isso, o olhar do Brasil deve estar voltado para a primeira infância”, defende. “A educação é onde podemos ter a maior taxa de retorno para a sociedade e é a alavanca mais poderosa e eficaz para diminuir a desigualdade. Investir nessa área não só uma questão socioeconômica, é de inteligência”, avalia.

O professor também alerta para o papel da tecnologia na formação das pessoas. O aprendizado é ilimitado e esse acúmulo de conhecimento ao longo da vida as diferencia. A tecnologia contribui com esse processo de transformação individual e coletivo, na sua análise.

O encontro

Mais de 50 pessoas participaram do debate na Sala Sebastião Camargo do Insper. O encontro teve abertura de Carolina da Costa, vice-presidente da graduação da escola. Tecnologia também é o ponto de destaque da professora, que propõe uma reflexão sobre Israel ser um país carente em recursos naturais, mas ter 60% do seu PIB baseado em bens de alta tecnologia e ter conseguido promover uma engrenagem que gera inovação para o mundo inteiro.

“A atividade pública é sofisticada e muito mais próxima da ciência de foguete do que da trivialidade”, ressalta também Milton Seligman, coordenador dos programas de Gestão de Políticas Públicas do Insper. “É uma grande oportunidade ouvir esses dois especialistas com grande atuação pública discutindo sobre Educação”, avaliou o professor.