Conjuntura econômica e política do Brasil traz ambiente pessimista para eleições 2018

A poucos meses das eleições presidenciais, especialistas apontam para cenário de crise e incertezas

O Brasil aproxima-se das eleições presidenciais em uma conjuntura de baixo crescimento potencial. Espera-se que o país cresça, em média, 1,7% ao ano na próxima década, uma perspectiva abaixo da estimada nos demais países da América Latina.

“Se não focarmos nos drivers de gastos, dificilmente conseguiremos controlar as despesas do país”, defende Daniel Leichsenring, economista-chefe da Verde Asset Management. “Comparando os resultados primários do governo federal em 2014 e 2017, os gastos com Previdência e da Lei Orgânica de Assistência Social – LOAS cresceram 15% e 14% respectivamente. Por outro lado, houve uma queda orçamentária de 52% em investimentos, 17% em abono e seguro desemprego e 13% em saúde e educação”, afirma.

“A crise é séria tanto do ponto de vista político como econômico, mas talvez não seja percebida na economia como é percebida na política”, afirma Carlos Melo, professor e integrante do Centro de Políticas Públicas (CPP) do Insper.

“A questão é tão crítica que os 11 ministros do Supremo estão mais em pauta do que os 11 jogadores que formam a seleção brasileira de futebol. Em um país como o Brasil, isso é muito sério”, compara.

O professor destaca que, ao longo dos últimos anos, o País tem enfrentado algumas grandes crises. Uma delas, causada pelo cenário fiscal, afetando juros e câmbio e que culmina na falta de infraestrutura, portos, aeroportos, nada que possa comprovar um aumento de produtividade e crescimento da União.

O presidencialismo de coalizão adotado no país, ou seja, de distribuição de postos administrativos em busca de apoio político e a formação de uma maioria parlamentar, criando uma base de sustentação no poder Legislativo, é um dos pontos de atenção, na avaliação de Carlos Melo, que também destaca o uso de empresas que têm relação com o Estado para o financiamento de campanhas, como outra conduta que potencializa uma crise política grave.

“Para fragilizar ainda mais o cenário, o Brasil está carente de liderança política, realidade que infelizmente não acontece somente no Brasil. O País passa por um enorme vazio nesse quesito, pois a qualidade política do Brasil é deplorável”, acrescenta ainda o professor.

Eleições déjà vu?

Para Melo, as eleições de 2018 serão semelhantes às de 1989 se comparar o cenário de crise, mas com agravantes: atual crise econômica é pior do que a de 1989. “Também vivemos muita fragmentação de candidatos. De um lado, Jair Bolsonaro, como aglutinador natural da direita; Ciro Gomes e Geraldo Alckmin lutando no campo do centro; e a esquerda ainda sem um nome definido, mas com a certeza de que Lula não tem mais tanta força de transferência de votos depois do escândalo da Lava Jato”, acredita.

Na avaliação de Carlos Melo, quem tiver uma base de votos fiel, fundamentalista, e for mais questionador em relação aos planos do governo atual tende a ser mais forte. Os candidatos com 15% ou 20% de votos obtidos no 1º turno podem ser considerados fortes porque poderão crescer muito no 2º turno com os votos brancos, nulos e abstenções do 1º turno.

O professor destaca ainda a falta de melhora nos quesitos de bem-estar, com a taxa de desemprego muito elevada, precarização das relações de trabalho e crise social que se traduz em segurança pública.

“Quando pensamos em crise de segurança pública, logo nos vem à mente o estado do Rio de Janeiro. Mas é triste constatar que existem outros estados em situação de segurança pior que a do Rio de Janeiro”, esclarece Melo, referindo-se a Sergipe, Rio Grande do Norte, Alagoas, Pará, Amapá, Pernambuco, Bahia, Goiás e Ceará.

Candidato outsider

Os candidatos outsiders estarão em alta nessas eleições como já se pôde comprovar nos Estados Unidos e na França. “No Brasil, não é diferente: a população está cansada dos velhos políticos e irá buscar candidatos fora do establishment”, avalia Carlos Melo.

Para o professor, o Brasil precisa de candidatos que tenham não só boas equipes técnicas preparando seus planos de governo, mas que consigam comunicá-los bem. Diante desse cenário, uma certeza é de que o próximo presidente precisará comunicar que os próximos quatro anos serão muito difíceis.

Conjuntura econômica e política em ano de eleições” foi o primeiro debate do calendário realizado pelo CPP do Insper, confira a agenda e fique por dentro dos próximos eventos.

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