Maternidade dificulta ascensão profissional e boa remuneração

Dados de mercado mostram que 28% das mães deixam o emprego após a chegada dos filhos devido à dificuldade de retornar ao mercado

A pesquisa Mulheres 2017, realizada pelo Insper em parceria com a Talenses no ano passado, trouxe números desanimadores sobre o mercado de trabalho. No Brasil, apenas 21% das mulheres estão em cargos de diretoria e somente 8% em cargos de presidência. Mas neste mês das mães, novos números de mercado apontam que, para as mulheres que se tornam mães, a situação é ainda mais difícil: mais de um quarto das mulheres deixam o emprego após tornarem-se mães, contra apenas 5% dos homens, e 21% delas levam mais de três anos para retornarem ao trabalho. A maternidade desacelera a trajetória de crescimento profissional e de remuneração das mulheres, enquanto a paternidade vem geralmente acompanhada por um prêmio salarial. A constatação é de Regina Madalozzo, coordenadora do Mestrado Profissional em Economia do Insper e pesquisadora na área de Economia da Família e Gênero.

O fato atinge mulheres de todos os níveis salariais e hierárquicos. Segundo a pesquisadora, isso ocorre porque, socialmente, vinculamos o sucesso profissional como um caráter masculino e a maternidade coloca a mulher no lado oposto desse cenário.

“As organizações ainda não estão preparadas para aceitar a ascensão da carreira das mulheres com naturalidade. Quando se pensa em líderes é comum vislumbrarmos os atributos masculinos. Isso porque possuímos vieses inconscientes, que nos permitem ter “pré-conceitos” e enxergarmos as pessoas como queremos enxergá-las, e não como elas realmente são”, destaca Regina. “Não basta ser dedicada e competente para uma mulher ocupar um cargo de liderança; ela precisa ser reconhecida pelos demais colegas e colaboradores como tal. Vieses inconscientes atrapalham muito as mulheres no mercado”, acrescenta a coordenadora.

Maternidade em cargo de liderança nas empresas é apenas uma das dificuldades que as mulheres enfrentam. A falta de flexibilidade de local e horário é outro empecilho, além das jornadas duplas, tendo que conciliar carreira com vida familiar.

Dados de 2017 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD, do IBGE), indicam que as mulheres realizam mais trabalhos domésticos que os homens, independentemente da faixa etária. Mulheres que ganham até R$ 1 mil por mês chegam a dedicar até dez horas a mais por semana a trabalhos domésticos do que seus pares.

“Para acolher essas mulheres mães, os ambientes de trabalho precisam oferecer mais flexibilidade para elas, de tempo e local para exercer suas funções, e isso não significa trabalhar menos, mas sim dar condições para que ela possa conciliar as duas funções. E por que não dar os mesmos direitos de flexibilidade aos pais, uma vez eles também devem participar ativamente da criação dos filhos?, proporcionando assim, um ambiente mais favorável às profissionais”, questiona Madalozzo.

Alternativas

Para a coordenadora, a adoção da licença-paternidade deveria ser obrigatória, considerando o bem da criança, inclusive. Mas não nos moldes que existem hoje no Brasil, que concede apenas 5 dias para os pais. Estudos revelam que a presença dos pais em casa com as crianças aumenta o vínculo de afeto entre eles, ajudando na mudança cultural e social, envolvendo mais os homens na tarefa de criar os filhos e, consequentemente, permitindo que as mulheres se dediquem mais a outras atividades, incluindo a ascensão profissional.

Há ainda outros entraves reservados para as mães no ambiente corporativo, como a sabatina que costumam enfrentar nos processos seletivos e que as deixam, muitas vezes fora da disputa. Regina aponta que para quebrar essa barreira, um caminho seria a análise cega do currículo, ou seja, uma avaliação isenta do candidato, considerando apenas as capacidades técnicas. Além disso, a avaliação e escolha do profissional deveria ser feita por um grupo diverso, garantindo uma maior isenção, uma vez que os viesses inconscientes e a cultura da empresa podem impactar negativamente a análise dessas profissionais.

Chances menores

Dados de mercado apontam que quando há uma mulher e um homem concorrendo para o mesmo cargo, as chances da mulher são menores, sendo também elas historicamente as que negociam pior o salário e o pacote de benefícios. Madalozzo alerta que quando tentam virar o jogo, arriscando-se a uma promoção ou melhores benefícios, a atitude não costuma ser bem vista, assim como é aos seus pares.

O Brasil avança a passos lentos no tema de igualdade de gêneros. Aos poucos, as empresas estão adotando programas de sensibilização como de mentoria e sponsorships, discussões sobre como os processos de seleção podem ser melhorados, os vieses inconscientes e programas para aumentar a presença de mulheres no topo da pirâmide corporativa. O caminho ainda é longo, mas precisa ser trilhado.

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