Leia entrevista com Prof. Sergio Lazzarini sobre seu livro: “Capitalismo de Laços”

Lançado em dezembro de 2010, livro aborda a ampliação do poder do Estado sobre as companhias privadas nos últimos anos. Leia abaixo entrevista com o professor, exclusiva para o Insper Conhecimento.

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Insper Conhecimento: Qual foi a sua motivação para escrever o livro?
Sergio Lazzarini: O livro Capitalismo de Laços nasceu das discussões de um grupo informal de pesquisadores, organizado em 2004 pelo Professor Bruce Kogut da Columbia University (na época, no Insead), que almejava conhecer os proprietários de empresas de diversos países e suas conexões.

Em 2005, notei que nos processos de licitação formavam-se consórcios com atores conhecidos, notadamente com a participação do governo e seus agentes, mesmo depois do período de privatizações. Percebi que o Estado não atuava mais como um agente com controle total em um número restrito de grandes empresas, mas que havia diluído sua participação em algumas empresas (privatizadas ou não) para atuar em uma rede muito maior de organizações.

Também após 2005, eu tive a expectativa que a onda de ofertas públicas de ações (IPOs – Initial Public Offerings) cumprisse o papel de diminuir a relevância do Estado, abrindo espaço para novos investidores, nacionais e internacionais. De fato, diversos novos empreendedores e investidores internacionais sugeriram, mas surpreendentemente o estado permanecia forte e presente em diversos setores.

No meu período de sabático oferecido pelo Insper, eu aproveitei minha passagem pelo The Weatherhead Center for International Affairs (da Harvard University) para me dedicar ao livro.

IC: Quais foram os principais aprendizados desse projeto?
Lazzarini: A minha expectativa inicial é que o Estado tivesse uma influência menor na economia, principalmente depois da onda de privatizações no final dos anos 90. Além disso, eu imaginava que, na última década, com os investimentos estrangeiros e os eventos de aberturas de capital, a iniciativa privada estivesse à frente no nexo de propriedade das empresas, com um Estado menos atuante.

No entanto, o livro mostra que o Estado não se afastou de atividades econômicas por meio da privatização e da abertura econômica. Na verdade o Estado, adotou um modelo de maior capilaridade, aumentando o número de empresas que contam com a participação do BNDES e dos fundos de pensão de estatais, que têm laços políticos com o governo. E essa ramificação do Estado é tão ou talvez mais poderosa do que o modelo anterior, pré-privatizações, quando a presença do Estado era importante, mas muito concentrada em um número menor de empresas.

O livro também deixa claro que a redundância de acionistas no Brasil é relevante, ou seja, existem proprietários e grupos participando, com laços cruzados, em muitas empresas. Em aliança com proprietários ligados ao governo, temos vários grupos privados nacionais que também tem uma presença transversal na economia.

IC: Podemos fazer uma comparação entre o cenário brasileiro com outros países?
Lazzarini: O fenômeno de concentração de acionistas não é uma exclusividade brasileira, mas o Brasil apresenta um índice de cruzamentos societários maior do que outras economias, tanto em países desenvolvidos como em países emergentes. Isso conseguimos perceber em um estudo comparativo internacional que sairá em breve em um livro editado por Bruce Kogut, de Columbia. A aglomeração de grupos societários no Brasil – que poderíamos chamar de “panelinhas” de proprietários –, ao final do período de reestruturação econômica da década de 90, mostrou-se similar à do México, mas muito superior em relação a outros países: 2,8 vezes a aglomeração na Coréia do Sul, 5,1 vezes a da Itália, 7,8 vezes a do Chile e 12,2 vezes a dos EUA.

Essa aglomeração de proprietários indica, por um lado, que vários donos estão juntando capital e reduzindo riscos em empreendimentos conjuntos. Mas, por outro lado, pode significar que nós temos um ambiente menos competitivo. Por exemplo, quando três construtoras se unem para participar de diversos consórcios em leilões de concessão, são duas a menos concorrendo. Cabe ao sistema brasileiro de defesa da concorrência avaliar o impacto dessas aglomerações na nossa economia. Em relação ao Estado, fica a questão sobre a necessidade de termos participações acionárias em muitos setores da economia, ao mesmo tempo em que nós ainda não resolvemos questões básicas, como o saneamento e a segurança.

IC: Quais são as principais questões que o livro apresenta?
Lazzarini: O livro não sugere uma alteração do modelo de capitalismo de laços, e sim por ações pontuais que possam alavancar seus efeitos positivos, ao mesmo tempo cuidando dos seus pontos mais negativos. Os fenômenos de aglomeração de grupos societários e da forte presença do Estado em diversos setores devem ser debatidos com mais transparência. Laços cruzados entre grupos privados nacionais e o Estado em inúmeros setores podem reduzir a competição em licitações e novos projetos, inibindo a participação de novos investidores e empreendedores. Seria importante, além disso, estabelecer critérios mais transparentes para a alocação dos investimentos do governo. Por que, por exemplo, investir em participações acionárias de empresas do setor frigorífico se existem outras prioridades de investimento com maior impacto social? Essa análise deveria ser apresentada de forma mais clara à sociedade.

IC: Quais são seus próximos projetos acadêmicos?
Lazzarini: Meu próximo projeto, na mesma linha do livro, será em parceria com o Professor Aldo Musacchio, da Harvard Business School. A idéia é concentrar o estudo sobre o Estado brasileiro, analisando seu papel como proprietário e gestor. Pretendemos lançar um livro, possivelmente a ser publicado daqui a dois anos. Além disso, continuo com diversos projetos em parceria com o Professor Sandro Cabral, da Universidade Federal da Bahia, onde procuramos examinar o impacto da participação da empresas privadas no desempenho de diversos tipos de serviços públicos, tais como prisões e saúde. Há um grande interesse em discutir como estratégias empresariais podem responder a oportunidades que surgem na interface com o setor público.