Privacidade em risco

Crimes cibernéticos podem gerar prejuízos econômicos, psicológicos e até físicos; analistas explicam como combatê-los

O segundo painel do seminário de Direito Digital – “As Armadilhas nas Redes Sociais: Riscos e Tendências” – teve como foco principal as ameaças físicas, econômicas e morais oferecidas pelo mau uso da web. Um dos principais problemas atuais são os chamados malwares, softwares malignos que invadem dispositivos eletrônicos sem o conhecimento dos internautas.

“Um usuário demora em média oito meses para perceber que sua máquina está infectada. Existem vários padrões de malwares, mas um dos mais emblemáticos aciona a câmera e o microfone do PC mesmo quando ele está desligado”, contou Vanessa Fonseca, Diretora da Unidade de Combate a Crimes Digitais da Microsoft no Brasil. Alguns hackers também invadem computadores de empresas para “sequestrar” os dados e pedir um valor de resgate – normalmente pago em moedas eletrônicas (como o Bitcoin).

A especialista destacou que as contaminações entram nas máquinas encontrando brechas de segurança do dia a dia. As mais comuns ocorrem na utilização de pen-drives e no acesso a redes Wi-Fi desconhecidas. “A falta de conhecimento em relação a esses riscos é o que mais nos preocupa”, afirmou Vanessa. Ela ainda ressaltou que a Microsoft trabalha em parceria com as autoridades para criar práticas e um ambiente digital mais seguro.

Os criminosos digitais também estão no foco da Interpol (Organização Internacional de Polícia Criminal), que tem como principal objetivo interligar a polícia de 190 países na busca de uma maior eficiência no combate aos crimes transnacionais.

“Recentemente, em um trabalho de planejamento estratégico, chegamos à conclusão que as atividades da organização deveriam ter como prioridade três pilares: ações contraterrorismo, crime organizado transnacional e crimes cibernéticos”, explicou Valdecy Urquiza, Delegado de Polícia Federal e Chefe do Escritório Central da Interpol no Brasil. O profissional destacou que os delitos cibernéticos se tornaram uma espécie de epidemia e estão crescendo de forma exponencial.

Os tipos mais comuns de delitos na internet são roubo de identidade, extorsão sexual e esquemas de romance (quando golpistas se passam por pretendentes amorosos para depois chantagear as vítimas). Essas infrações, inclusive, já geraram casos de suicídio no mundo inteiro.

Um dos fatores que mais dificulta as investigações policiais é o uso da Deep Web (área da internet que não é rastreada por buscadores, como o Google). “Nela, o anonimato vai para um nível maior do que na rede convencional”, ressaltou o Delegado. Por causa disso, as pessoas têm utilizado a Deep Web para os mais variados tipos de comércios ilícitos, como cédulas de identidade falsas, cartões de crédito brasileiros e ferramentas para “hackear” redes sociais, tudo isso ofertado de forma aberta e livre, porque eles se sentem protegidos por um pseudo anonimato.

Para Urquiza, a melhor forma de combater os criminosos da web é fazer com que a polícia e as autoridades alcancem o mesmo patamar de conhecimento técnico. Por isso, a Interpol criou uma espécie de força tarefa. O Complexo Global de Inovação Tecnológica reúne policiais e representantes de empresas privadas e universidades para tentar garantir uma maior velocidade nessa curva de aprendizado de combate ao crime.

A internet gosta das mulheres?

Gabriela Manssur é Promotora de Justiça e Criadora e Coordenadora do Primeiro Núcleo de Combate à Violência contra a Mulher do Ministério Público do Estado de São Paulo. Ela abriu o painel “As Armadilhas nas Redes Sociais: Riscos e Tendências” e analisou a situação do sexo feminino na web. “Será que a internet gosta das mulheres?”, questionou a profissional, ao mostrar que 51% dos crimes contra elas (como ameaça, injúria, calúnia, difamação e violência psicológica) são cometidos por meio de redes sociais.

O processo de justiça para essas vítimas nem sempre é fácil. No caso de compartilhamento não autorizado de fotos íntimas (difamação), por exemplo, é preciso contratar um(a) advogado(a) para entrar com uma ação penal privada. Nem todas as pessoas têm conhecimento e recursos para fazer isso. Muitas acreditam que ir à delegacia de polícia é suficiente para resolver o problema. Entretanto, é bem provável que nesse meio tempo as imagens se espalhem em diferentes redes sociais e plataformas.
Como dito no primeiro painel, as ações feitas na internet geram consequências na vida real – é necessário educar as pessoas em relação ao uso da web. 51% das vítimas que sofrem com o crime de pornografia de vingança (divulgação de fotos íntimas para prejudicar uma ex-namorada) relatam ter pensamentos suicidas. 49% sofrem com assédio ou perseguição online e 30% afirmam passar por essas situações fora da internet. As vítimas também costumam ter dificuldades no trabalho e na escola, necessidade de auxílio psicológico e prejuízos nas relações com amigos.

 

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