Globalização e revolução industrial

Fatores internos sozinhos não seriam capazes de sustentar crescimento

Sem o comércio internacional, a revolução industrial não teria sido possível. A globalização iniciada pela Inglaterra, a partir de 1849, permitiu ao país escapar da armadilha malthusiana, modelo em que a população cresce mais rápido que a produção, gerando instabilidades. Fatores internos apenas, como a inovação tecnológica e proteção da propriedade privada, não seriam suficientes para evitar a estagnação diante do crescimento sem precedentes. Mais: sem a possibilidade de comércio intercontinental, a taxa de produtividade certamente teria sido menor.

Outra quebra estrutural já estava ocorrendo quando a revolução industrial teve início: o primeiro grande choque de globalização. Foi com a influência combinada da mudança do mercantilismo para o comércio livre, no começo do século 19, assim como o desenvolvimento de novas tecnologias de transporte e o declínio constante em seus custos ao longo de todo o século, que os grandes gaps de preço intercontinentais começaram a desaparecer. O progresso técnico em manufatura começara 40 anos antes.

Consequentemente, foi só no século 19 que o comércio internacional em larga escala se tornou possível para commodities básicas como grãos, carvão e outras matérias-primas.

Essa expansão do comércio internacional toma lugar ao mesmo tempo em que a tecnologia atinge um estado de desenvolvimento alto o suficiente para permitir à economia transitar da estagnação para o crescimento dinâmico, do setor agrícola para o da manufatura. Sem essa troca intercontinental, não seria possível realocar mão de obra e terras da agricultura para a indústria – haveria uma crise alimentar e os preços das matérias-primas permaneceriam proibitivos.

Em torno de 1800 houve uma aceleração do crescimento tecnológico e, com a intensificação da inovação em manufatura, recursos foram transferidos para o setor, elevando os preços das commodities agrícolas. Perto de 1840 os preços relativos se estabilizaram, pois passaram a serem determinados pelo mercado internacional.

Com a importação de produtos, a alocação de terras de fazendas para outros empreendimentos aumentou quase nove vezes entre 1730 e 1860. E, enquanto a população mais que triplicou ao longo da revolução industrial, a agricultura doméstica nem ao menos dobrou. O valor da terra também caiu.

Um modelo da economia inglesa hipoteticamente fechada, estruturado a partir do fluxo circular da renda em dois setores, não é capaz de explicar a queda no valor da terra observado no século 19. Sem o comércio internacional – com as colônias ou outra região do mundo – a Inglaterra não conseguiria realocar recursos para a produção de bens manufaturados em ritmo acelerado. O período de transição em um modelo de economia fechada seria significativamente mais longo.

O artigo foi escrito pelo professor Marcelo Rodrigues dos Santos, em coautoria com os pesquisadores da FGV Pedro Cavalcante Ferreira e Samuel Pessôa.

O original, em inglês, foi aceito para publicação no Macroeconomic Dynamics e a versão preliminar do Working Paper está disponível no acervo do Insper. Acesse aqui.