Economia circular é uma alternativa para a reversão da crise econômica

Evento no Insper discute experiências positivas neste novo modelo de produção

Apesar do cenário de crise, o Brasil mostra algumas características únicas que podem ser úteis para reverter a situação: é um país com enorme mercado consumidor estimado em mais de 205 milhões de pessoas, que não deve ser ignorado, possui um ecossistema industrial integrado e forte, desde o minério de ferro até produtos acabados, e é um país com cultura de criatividade e de liderança empresarial, essencial para transformar crises em oportunidades.

É um consenso que o estilo de vida promovido pela economia linear com que estamos acostumados tem mostrado efeitos colaterais muito nocivos para a sociedade, como poluição, desmatamento, empobrecimento dos solos férteis, esgotamento dos recursos naturais finitos, redução da biodiversidade e alterações globais no clima, por exemplo.

Diante desse cenário, a economia circular se apresenta como uma forma de repensar as dinâmicas econômicas, com o objetivo de reutilizar materiais e produtos ao máximo, com o mínimo de desperdício, respeitando seus ciclos naturais.

Baseada em três princípios, esse tipo de economia preserva e aumenta o capital natural, controlando estoques finitos e equilibrando os fluxos de recursos renováveis; otimiza a produção de recursos, fazendo circular produtos, componentes e materiais no mais alto nível de utilidade o tempo todo, tanto no ciclo técnico quanto no biológico; além de fomentar a eficácia do sistema, revelando as externalidades negativas e excluindo-as dos projetos.

“Para garantir uma economia circular, é necessário mudar radicalmente a maneira de produzir. A escolha das matérias-primas, o desenvolvimento dos produtos e o aproveitamento dos sub-produtos industriais são aspectos essenciais desse modelo”, destaca Daniel Guzzo, professor de Design da Engenharia, que apresentou a 1º edição do Ciclo de Debates sobre Economia Circular, promovido pela Coordenação de Extensão e Responsabilidade Social do Insper.

A chave da economia circular é inovação

A economia circular exige mudanças em vários níveis. Não só na máxima reutilização e reparação de produtos, mas também na economia de energia e água, na redução de lixo, na mudança de cultura e conscientização de pessoas e empresas e na mudança de processos industriais. E é aí que entra a cadeia de suprimentos sustentável.

Mariana Vieira, coordenadora de Sustentabilidade da C&A no Brasil tem apresentado a experiência da multinacional nesse novo modelo de produção. Preocupada com a sustentabilidade de seu negócio, a C&A, já em 2006, começou a monitorar sua rede de fornecedores e, em 2015, lançou sua estratégia global de sustentabilidade, estruturada em três pilares e com metas definidas para cinco anos (2015-2020).

O primeiro pilar refere-se a produtos sustentáveis e está dividido em duas grandes frentes: matérias-primas mais sustentáveis e economia circular. “Nossa meta é que 67% de todas as matérias-primas da empresa sejam de origem mais sustentável, como por exemplo, algodão orgânico”, esclarece Mariana.

“No que se refere à economia circular, estamos caminhando pouco a pouco, mas uma iniciativa que nos deu muito orgulho foi a produção de uma camiseta com o selo cradle to cradle, certificação que avalia a inovação em produtos e processos de fabricação considerando os benefícios ambientais, comunicando de forma clara aos clientes e a cadeia de valor”, completa.

Desenvolvido na Europa, o projeto consiste na confecção de uma camiseta produzida com algodão mais sustentável, produtos químicos homologados, energia renovável e reuso de água. Mas o grande diferencial da peça é que ao final de sua vida útil, ela pode ser compostada, virando adubo depois de 12 semanas.

Ainda faz parte da estratégia de sustentabilidade da empresa uma rede de fornecimento sustentável, que se preocupa com o meio ambiente e a saúde e segurança dos fornecedores, garantindo condições de trabalho seguras e justas.

O terceiro pilar da estratégia de sustentabilidade da empresa, Vidas Sustentáveis, tem um olhar para o engajamento dos colaboradores e dos clientes, de maneira transparente.

Um lixo cheio de riquezas

De acordo com a Boomera, jovem empresa brasileira que auxilia empresas a transformarem resíduos em novos produtos, R$ 8 bilhões são gastos em aterros e lixões no Brasil por ano.

“Só existe lixo porque alguém, durante o processo de produção de um produto, não pensou no que ele poderia se tornar ao final de sua vida útil”, pontua Gustavo Fonseca, gestor de Novos Negócios da Boomera, que também participou do debate promovido pelo Insper.

“Mas nós acreditamos que esses R$ 8 bilhões são uma enorme oportunidade de negócios. Daí a existência da Boomera. Nosso trabalho é alavancar um ‘novo pensar’ e um ‘novo fazer’ junto aos nossos clientes. Repensamos produtos para que o lixo não seja criado”, conclui Fonseca.

A empresa consegue gerir projetos de economia circular em seus clientes por meio das seguintes estratégias: engenharia de materiais aplicada à economia circular, logística reversa e o desenvolvimento de produtos que evitam a criação de lixo e criação de produtos para o que hoje é resíduo.

A Boomera foi a responsável pela implementação do 1º projeto de logística reversa pós-consumo do Grupo Pão de Açúcar, impactando mais de 100 lojas, em 30 cidades, e com 500 toneladas de resíduos recicláveis por mês.

“Trabalhar a cultura da empresa e a conscientização dos colaboradores também é elemento fundamental para a implementação de uma economia circular. Quando conseguimos unir pessoas de diferentes funções na empresa, fazendo com que todos tenham um mind set comum, o resultado é só sucesso”, finaliza Fonseca.

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