Discurso de formatura da 26ª. turma da graduação

Insper Instituto de Ensino e Pesquisa

Marcos Lisboa faz discurso sobre o rito de passagem dos alunos que se formam e da história do Insper

Leia discurso na íntegra:

Hoje é dia de celebração; a comemoração de ritos de passagem. Vocês encerram um ciclo. A escola inicia outro.

Curiosamente, se fomos bem sucedidos, em ambos os casos, a transição será suave.

Nossa missão é prepará-los para a sua vida profissional, formá-los para que possam enfrentar os desafios à frente. Para além do conhecimento, a capacidade de aprender, a tolerância com a divergência, o trabalho em equipe, a disciplina e a tenacidade.

Se fomos bem sucedidos, colaboramos com a formação de cidadãos atentos aos desafios comuns, os desafios que são de todos nós.

Sou de uma geração que experimentou, tristemente, o autoritarismo. Vocês são filhos da democracia. Esperamos que também herdeiros de compromisso com a solidariedade e valores que nossa história recente revela ainda mais essenciais: a ética, o compromisso com o público, o respeito à divergência.

Este o teste do direito à liberdade de expressão e à valorização da democracia: o respeito ao discurso daqueles de quem divergimos profundamente; inclusive daquilo que consideramos ofensivo.

Hoje temos outro rito de passagem. Esta é a primeira formatura em que o discurso inicial não é feito por Claudio Haddad.

Nossa escola é um presente. Há pouco mais de uma década, Claudio e seus sócios resolveram doá-la para o bem comum. Uma instituição sem fins lucrativos, destinada a formar profissionais preparados para além da técnica. Uma escola centrada no aluno e na formação de cidadãos, que colabora com o debate público e a melhora do ambiente de negócios. Uma escola para o Brasil.

Não recebemos recursos públicos. Dependemos integralmente das mensalidades dos alunos que escolhem aqui estudar e de doações privadas para viabilizar nossas expansões e o programa de bolsas de estudo.

Temos a regra Haddad. Buscamos viabilizar que todos os que passam no vestibular possam estudar na escola.  Atualmente, 11% dos nossos alunos são bolsistas, e o percentual tem crescido recentemente. Viabilizar a expansão dos alunos bolsistas, preservando a regra Haddad, é um dos nossos grandes desafios para os próximos anos.

Qualquer que seja a sua escolha de carreira, executem-na com diligência, disciplina, atenção aos detalhes, profundidade e busca pela excelência. Muitos devem optar pelo setor privado, outros pela academia, um grupo crescente tem escolhido o terceiro setor. Todas as escolhas são meritórias. Que vocês, mais tarde, possam avaliar, com a satisfação de um artesão orgulhoso, a realização do seu trabalho.

Generosos, façam por alguém, na escola, fora da escola, o que Claudio fez por vocês.  Esta a regra Haddad: fazer despretensiosamente, desinteressadamente, retribuindo para além do que receberam; fazendo por outro mais do que fizeram por vocês. Façam por seus filhos melhor que seus pais fizeram por vocês. Façam pelos que necessitam mais do que receberam. Sejam melhores do que foi a minha geração.

Experimento hoje, também, o meu rito de passagem. Assumo a direção da escola, e ocupo o papel que tantos anos foi de Claudio.

Durante dois anos convivemos nesta transição peculiar. Não havia papel bem definido, nem desenlace inevitável. Convivemos, aprendemos um ao outro. Confiança. E hoje aqui estamos. Eu, sucedendo a Claudio. E minha filha, Inez, se formando na primeira turma em que o sucedo.

Ritos de passagem. Que Inez seja melhor do que fui. Que eu seja melhor do que Claudio. Que vocês sejam melhores do que seus pais.

Provavelmente, a maioria, a começar por mim, fracassará. Não importa. Como escreveu Beckett, já no fim:

Tudo como antes. Nada de novo, sempre.
Sempre tentando. Sempre fracassando.
Não importa.
Tente outra vez. Fracasse de novo.
Fracasse melhor.

O envelhecimento tem ao menos uma pequena compensação, a ser utilizada com moderação: permite o exercício da duvidosa arte do conselho.

O sucesso pode entorpecer. Permitam-se o orgulho do trabalho bem feito. Temam, porém, a arrogância e a soberba. O erro ensina, desde que aconselhado pela serenidade.

Temam, sobretudo, o preconceito. Sejam particularmente críticos das ideias a favor do que vocês já acreditam. Sejam generosos com a discordância. Exerçam o benefício da dúvida. Valorizem o contraditório.

Fracassos fazem parte da vida. Que a ambição de vocês seja equivalente a sua capacidade de reconhecer equívocos e planos eventualmente frustrados.

Cuidem dos que tiveram menos. Cobrem mais de vocês do que cobram dos demais. Doem mais do que receberam.

Se fracassarem na primeira vez, tentem de novo. Reclamem menos e ofereçam mais, concedam mais. Sejam melhores do que fomos. Para o bem de vocês.

O difícil momento do país tem ao menos o mérito de ressaltar a relevância da ética. Fazer o certo nem sempre é fácil, por isso mesmo, ainda mais meritório.

John Harsanyi, um dos grandes economistas do século passado, propôs um critério simples: analise as possíveis decisões e suas consequências para todos os participantes. Imagine, ainda, a economia requer imaginação, que a escolha deve ser feita sem saber qual dos participantes você será. Qual seria a escolha caso você não soubesse o seu papel e o quinhão que lhe cabe neste latifúndio?

A justiça talvez seja filha da empatia, a capacidade de por no lugar do outro.

Procurando ser melhores do que fomos, vocês nos honrarão. Procurando ser justos, vocês honrarão a si mesmos.

Termino com Chacal, um velho poeta carioca:
Vai ter uma festa
Que vou dançar
Até o sapato pedir pra parar.
Aí eu paro, tiro o sapato
E danço o resto da vida.
Celebrem.
A festa é de vocês.

Marcos Lisboa
26/08/2015

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