Eixo Político-Social: o desafio do conhecimento e da transformação

Insper Instituto de Ensino e Pesquisa

A crise brasileira revela um problema mais profundo que um mero desacerto conjuntural. Ela corresponde a questões estruturais, um desarranjo em várias áreas: o sistema político e seu financiamento; a incapacidade de representação dos atuais partidos; o esgotamento de modelos econômicos e do padrão de governabilidade política, que parece, nos dias de hoje, incapaz de oferecer respostas aos desafios do País. É preciso construir a mudança. Inovar, com responsabilidade.

A saída da crise supõe algum tipo de concertação. A produção de uma nova hegemonia inclusiva, fundada em novas ideias e alguma ousadia. Para isto, requer-se um novo tipo de liderança. No sistema político, no mundo intelectual, na sociedade civil organizada. O Brasil vem sendo capaz de desenhar este novo tipo de liderança. É neste processo que o Centro de Liderança e Inovação, que ora apresentamos, pode oferecer a sua melhor contribuição.

 

Crise de liderança

País em transição, parecemos conviver, simultaneamente, com o melhor e o pior. De um lado, a crise ética; de outro, um imenso desejo social, por vezes desordenado, de novos rumos. A saída não será feita, por certo, como por vezes se pensou, na tradição brasileira, pela via do grande líder. Nem a via populista, nem forma alguma de autoritarismo. Ao invés disso, um novo modelo de protagonismo social. Nossa crise traz a imagem daquelas bonecas russas, as matrioskas – em que há bonecas no interior de outras bonecas –, há instabilidade, há carência de novas agendas, há impossibilidade de comunicação entre os contrários, há crise de confiança generalizada. Mas a crise mais elementar, a primeira matrioska, quase invisível, parecer ser a crise de liderança política.

Não é apenas no Brasil, com efeito, que isto ocorre. Basta um olhar panorâmico pelo mundo para constatar que a liderança política atual, em todo o planeta, passa por um visível processo de perda de qualidade. Processo que, em vários momentos e lugares, tem sido trágico. A incapacidade de contornar os conflitos, propor alternativas e construir consensos é, neste momento, matéria-prima rara, o que tem dificultado equilíbrios sociais e políticos

O ponto é definir o que ocorreu. A sociologia contemporânea tem nos ensinado que um fenômeno complexo não é resultado de uma única e nem de um par de causas. Questões complexas exigem que se saia do senso comum, que tomemos alguns riscos, formulando-se novas hipóteses, que, provavelmente, levarão a respostas complexas. Que respostas são essas?

A resposta é complexa; em alguns casos, quase impossível. Ela parece vir mesmo acompanhada por uma grande transformação na própria concepção de poder. Como bem assinalou Moisés Naim, é possível que estejamos vivendo o fim do poder. O poder, hoje, se estrutura por novos e até desconhecidos meios; o poder se fragmentou, em que pese ou até porque a sociedade se aglutinou em novas formas de conexão, com novos instrumentos de comunicação e com a integração de economias e culturas.

Paradoxalmente, essa mesma sociedade é também mais variada, mais diversa de valores, repleta de culturas díspares e de conflitos até aqui estranhos à história da própria humanidade. Isto tudo leva a uma grande perplexidade; os diagnósticos ainda são incompletos e, portanto, insatisfatórios; não há quem consiga, a contento, traduzir o espírito do tempo e, ao mesmo passo, vocalizar e organizar todo o desconforto que parece nos abraçar.

Nem sempre foi assim, porém. Em outros momentos de intensa transformação, figuras decisivas emergiram da sociedade – das elites, das oligarquias ou do povo, não importa; com inteligência, sagacidade e habilidade, implementaram a ação renovadora. Apenas para tomar casos paradigmáticos do mundo contemporâneo, podemos pensar em Nelson Mandela, líder rebelde que se tornou presidente da África do Sul em 1994; Ronald Reagan, presidente dos Estados Unidos na década de 80; Margareth Thatcher, primeira-ministra do Reino Unido entre 1979 e 1990; e Mikhail Gorbachev, último líder da União Soviética; e Vaclav Havel, último presidente da Checoslováquia e primeiro presidente da República Checa.

 

Um novo tipo de liderança

Não se trata, aqui, de fazer apologia a um tipo de gênio ou virtude política que teria se perdido, por alguma razão obscura, no universo social contemporâneo. É um equívoco pensar a liderança simplesmente como resultado de atributos pessoais ou de certo tipo de formação cultural. Há um processo social que fez erodir a ideia da grande liderança de Estado. A liderança de alta performance. O que não é necessariamente negativo. Pode significar o convite para que os cidadãos, organizados de múltiplas formas, assumam um novo tipo de responsabilidade.

Há, por certo, no mundo atual, a emergência de um novo tipo de liderança: a liderança social. A explosão da filantropia global, o movimento The Giving Pledge, as novas formas do terceiro setor, as organizações de base, dentro de comunidades, potencializadas pelas redes digitais. Organizações que veiculam um novo tipo de protagonismo social ainda não bem compreendido. Cabe ao Centro de Liderança e Inovação estar atento e dar expressão a estas novas formas e atitudes sociais.

Sem pretender oferecer respostas acabadas, é certo dizer que há um considerável mal-estar na sociedade. Em alguma medida, trata-se do desconforto de uma sociedade em rápido processo de mudança, que demanda novos conceitos. É possível que a própria noção do líder providencial esteja com seus dias contados. É possível que as sociedades de rede – para usar a expressão de Manuel Castells –, demandem um tipo novo de trabalho cooperativo, de liderança pelo exemplo, de diálogo feito à base de responsabilidades compartilhadas. A liderança prosseguirá vital, neste mundo novo, mas será, por certo, de um tipo diferente.

Compreender estas novas dinâmicas, apostar na pesquisa, na volta a um saudável empirismo, na busca do intercâmbio global, no cotejo entre a experiência da vida e a academia. Tudo isto está contido no DNA deste novo espaço de investigação e educação que ora inicia seu trabalho.

E que, então, se dissemine o conhecimento, nas salas de aula, nas comunidades sociais, nos partidos políticos, nos movimentos sociais. Não parece ser ainda possível ensinar a quem quer que seja a ser líder. Mas se podem discutir valores, atitudes, propor novas práticas, questionar o status quo e nossas tantas zonas de conforto. Este é o ponto: acreditamos factível apostar em um saudável diálogo entre tradição e inovação. Sistematizar o conhecimento e os instrumentos para que grupos sociais se desenvolvam e deles emerja a liderança que se procura, nos âmbitos político, social e empresarial.

Esta é a missão que nos colocamos. O desafio político e social a que nos propomos: compreender o fenômeno da liderança, descobrir as causas de sua fragilização no Brasil e no mundo contemporâneo; produzir um conhecimento que possa, ao mesmo tempo, ser transformador. Mãos, cabeças e corações à obra!

 

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