Insper Liderança com Fernando Gabeira

Insper Instituto de Ensino e Pesquisa

Em evento promovido pelo Insper, ex-deputado federal disse que sistema parlamentarista e voto distrital são opções para tirar o Brasil desse quadro desfavorável

Jornalista, ativista, ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro, intelectual, escritor de vários livros, entre eles O que é isso, companheiro?, vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura. O currículo de Fernando Gabeira é vasto e instigante. Talvez seja por isso que ele conseguiu lotar o auditório Steffi e Max Perlman, do Insper, mesmo com o frio da noite paulistana do dia 23 de maio.

O evento realizado pelo CLI – Centro de Liderança e Inovação do Insper tinha como proposta principal a compreensão da crise atual e possíveis soluções para o futuro. Na prática, Gabeira relembrou um pouco sua história e ainda deu sua opinião sobre o cenário político atual. A conversa foi mediada pelos professores do Insper e integrantes do CLI, Carlos Melo e Fernando Schüler.

A figura do líder
Melo abriu o evento indagando Gabeira sobre a liderança política brasileira, pois, para ele, há uma grande crise neste quesito. Em resposta, o jornalista relembrou um comício em Caruaru (PE) logo no início do movimento Diretas Já que contou com a presença de políticos como Fernando Collor de Mello, Mário Covas, Leonel Brizola e Luiz Inácio Lula da Silva. “Estava evidente que tinham duas estrelas no palanque: Collor, que vinha em uma trajetória como o ‘Caçador de Marajás’, e Lula, que apresentava sua proposta de ética na política”, disse. “Hoje, olhando para trás, os dois foram ‘lavados a jato’. Embora reconheça a responsabilidade de cada um, me pergunto se não há muitas armadilhas no caminho e se não precisamos retirá-las para que líderes possam surgir de forma espontânea”.

Para Gabeira, o Brasil não teve grandes líderes em sua história moderna. Isso porque o próprio processo político não necessitava de tais figuras. O que o país precisava mesmo era que alguém tomasse o poder e distribuísse cargos. E, nesse caso, uma pessoa que apenas conduzisse o processo já estava apta. “Sabemos que o Brasil precisa de líderes. Mas essa ansiedade nos arrasou. Foram exatamente líderes carismáticos e muito poderosos que nos levaram para o buraco”, afirmou.

Esquerda vs. Direita
Gabeira não mede palavras ao dizer que hoje não há grandes conflitos entre esquerda e direita. Para o ex-deputado federal, a briga presenciada durante o processo de impeachment da – presidente Dilma Rousseff pode ser considerada apenas um episódio nostálgico. “Quem quiser, aproveite, pois talvez não vejamos mais esse tipo de embate”, comentou. “Hoje, na verdade, essa denominação nem é mais importante.”

O jornalista acredita que a separação não é primordial já que não distingue mais ideais. Atualmente, não dá para alegar que apenas a esquerda se preocupa com temas sociais, como uma aposentadoria digna. Uma direita progressista também será sensível ao tema. O que prevalece ainda é a parte emocional de cada ideologia. “O próprio populismo não cresceria tanto se não tivesse essa carga. Essa emoção, principalmente da esquerda, de sempre optar pelo bem, ainda existe em muitos jovens”, revelou Gabeira.

Panorama atual dos partidos
Um dos motivos para existir a falta de clareza quanto as propostas e as reais diferenças é a quantidade de partidos políticos que há no Brasil. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), são 35 ao todo. “Poucos são aqueles que possuem tendências claras. Sabemos exatamente a linha do PT e do PSDB, por exemplo, mas a maioria não tem unidade de pensamento. Também não há mais reuniões partidárias definindo qual a agenda do mês. Os partidos passaram a ser um agrupamento de ocasião, um apanhado de pessoas que não são movidas por ideias”, alegou Gabeira.

Embora não negue que existam indivíduos que provoquem discussões relevantes e dão o tom certo em determinados momentos, Gabeira acredita que os partidos, como um grupo, não se permitem a aproximação com a sociedade. “Tanto em 2013 com as manifestações quanto no movimento pelo impeachment, eu não vi nenhum esforço de aproximação”, relatou. “Em qualquer lugar do mundo que houvesse participações dessa envergadura, os partidos estariam lutando para absorvê-los. Aqui, só houve esforço do movimento, pois eles compreenderam que para realizar o impeachment precisavam do Congresso”.

Na época em que estava na Câmara dos Deputados, Gabeira teve uma ideia para reverter esse descaso: ele reuniu representantes de diferentes partidos que tinham uma identidade com o país e carregavam a vontade de atuar para melhorar o Brasil. “Foi assim que nós constituímos um grupo de 35 pessoas que fazia sua agenda e tentava modificar o Congresso. E nós modificávamos”, lembrou.

Ideias para o futuro
Hoje, mesmo não estando na linha de frente, Gabeira ainda expõe suas ideias para um Brasil melhor no futuro. Segundo ele, duas propostas que amadureceram e podem transformar o cenário político são a adoção ao voto distrital ou a um sistema parlamentarista. “A crise brasileira e o desgaste político e econômico que nós tivemos com esse sai ou não sai da Dilma está mudando o pensando das pessoas e deixando-as mais sensíveis a estes cenários. Entretanto, não sei se conseguimos conduzi-los de fato”, afirmou.

Outra ideia exposta por Gabeira no evento é a implementação de um sistema como o das primárias norte-americanas, assim, candidatos mais qualificados serão entregues à população. “Por exemplo, se o Lula levasse a Dilma para as primárias no PT, ela não chegaria nem a ser candidata. Isso porque esse é um processo de confronto e de discussão de ideias entre as pessoas do mesmo partido”. De acordo com o ex-deputado federal, o problema do Brasil é que as pessoas são indicadas de cima para baixo.

Ao falar em candidatura, quem torce para que Fernando Gabeira volte para a política brasileira terá que adiar esse desejo, pois isso não está atualmente em vista. “Eu não entro na política só por entrar. Eu preciso ter um quadro ou algumas ideias para poder avançar”, disse. Por enquanto, os únicos planos do ex-deputado são trabalhar ao ar livre e somente voltar para casa para escrever um pouco.

Confira o vídeo do evento na íntegra:


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Uma conversa sobre liderança

Assista ao vídeo em que Carolina da Costa, Maurizio Mauro e Carlos Melo debatem sobre a formação da liderança e seu papel na política e nas organizações.

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