Artigo: Efeitos do celular sobre o crime: evidências para São Paulo

A abordagem econômica para o crime supõe que indivíduos realizem ou não atos ilícitos com base nos incentivos que se apresentam a eles. Uma maior eficácia da ação policial reduziria a ocorrência de crimes, pois indivíduos propensos a cometê-los levariam em consideração os custos associados à maior probabilidade de serem pegos. O mercado de trabalho mais aquecido faria com que menos pessoas se engajassem em ação criminosa, uma vez que os benefícios esperados de entrar no mercado formal seriam maiores. Um aumento no preço relativo de um bem o tornaria foco de mais furtos, pois os ladrões buscam tomar objetos de maior valor.

Assim, as características dos objetos que podem ser furtados ou roubados são de enorme relevância. Para além dos aparatos de segurança da vítima – alarmes; muros; presença de viatura policial próxima – aspectos como a portabilidade e a visibilidade do objeto influenciam na probabilidade de um criminoso ser identificado depois de cometer um delito. O que é mais fácil, roubar uma televisão ou um brinco? É de se esperar também que o valor de revenda do objeto importe para determinar o risco que o potencial criminoso está disposto a correr.

Se esse raciocínio for válido, espera-se que a disseminação de objetos leves, pequenos e valiosos fizesse com que os índices de furto e roubo aumentassem significativamente. A partir da Pesquisa de Vitimização realizada na cidade de São Paulo nos anos de 2003, 2008 e 2013 o Centro de Políticas Pública (CPP) constatou que foi exatamente esse o padrão observado no município: disseminação massiva de telefones celulares na população paulistana – para qualquer subgrupo de classe social que se queira considerar – e aumento persistente na taxa de indivíduos que responderam ter sofrido furto nos 12 meses anteriores à pesquisa, como mostrado nos Gráficos 1 e 2, respectivamente.

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Apesar da evidência à prima facie, é preciso uma avaliação mais rigorosa dos dados para concluir que há causalidade entre os dois fenômenos. Para tanto, o CPP se propôs a avaliar a pertinência dessa hipótese através de técnicas econométricas que nos permitissem estimar o efeito do celular sobre a probabilidade de um indivíduo ser vitimado, mantendo todos os demais fatores relevantes inalterados (idade, gênero, distrito em que reside, etc). Os resultados sugerem que indivíduos que em 2003 viviam em residências em que alguém possuía um celular eram, em média, 2,2 pontos percentuais (p.p.) mais propensos a sofrer crimes[1] do que indivíduos semelhantes que, em 2003, residiam em um domicílio em que não havia celulares. Para o ano de 2008, essa estatística é nula. Não analisamos o ano de 2013, já que todos os domicílios possuíam celular neste ano. Quando utilizamos métodos mais robustos, em que acompanhamos um mesmo indivíduo entre os anos de 2003 e 2008 e assim lidamos com outros problemas de vieses, também chegamos a resultados positivos para o efeito da posse de celular sobre a probabilidade de ser vitimado. As estimações nos dizem que indivíduos que residiam em domicílios que em 2008 passaram a ter celulares são, em média, 1,5 p.p. mais propensos a sofrerem roubos do que indivíduos em cujas casas não havia qualquer telefone celular em 2003 nem em 2008.

Os resultados obtidos sugerem que o celular impactou a probabilidade de se tornar vítima de crime contra pessoa no município de São Paulo, entre os anos de 2003 e 2008. Realizamos testes semelhantes aos expostos acima para probabilidade de ter casa ou carro roubados, um tipo de vitimização que não deveria ser afetada pela posse de celular. De fato, o que se observa é que a presença de celular só afeta crimes contra pessoa. Uma constatação como essa indica que criminosos esperam obter grandes ganhos ao roubar celulares. Isso se deve, talvez, aos altos preços de revenda de celulares furtados, o que sugere que desenhos de políticas de segurança pública que coíbam mercados ilegais de revenda podem ter efeitos desejáveis sobre as taxas de criminalidade contra pessoa. Ademais, fica evidente a importância de se aprimorar as técnicas de segurança de equipamentos pessoais, como o desenho de aplicativos que permitam comunicação direta com a polícia caso o usuário se sinta ameaçado[2]. Medidas como essas poderiam reduzir o ganho obtido por criminosos em roubar celulares e, consequentemente, reduzir significativamente o número de incidentes de furto e roubo na cidade de São Paulo.

[1] Considera-se aqui crime como a reunião das estatísticas de furto e roubo.

[2] Há exemplos de aplicativos já em funcionamento que realizam esse tipo de serviço. O iWitness, quando ativado, conecta o usuário diretamente com um número de emergência, dá a localização exata do usuário e liga automaticamente a câmera de vídeo do aparelho.