Artigo: Desenvolvimento Infantil e Desigualdade

Artigo elaborado pela equipe do Centro de Políticas Públicas do Insper

Uma forma interessante de tentar explicar os diferentes níveis socioeconômicos das pessoas é remontar suas trajetórias de desenvolvimento. A ideia consiste em procurar por características do passado desses indivíduos, até mesmo dos primeiros momentos de sua vida, que possam explicar os seus resultados observados hoje.

Na literatura econômica, há um vasto campo de pesquisa que faz uso dessa abordagem. Os trabalhos desse ramo observam que muitas das habilidades, socioemocionais e cognitivas, que podem definir os resultados futuros dos indivíduos, são desenvolvidas na primeira infância. No entanto, observa-se também que o ambiente social, em especial o familiar, em que a criança vive tem um papel determinante no desenvolvimento dessas habilidades, provendo (ou não) as condições favoráveis para tal. Por isso, observar variáveis como renda domiciliar, tamanho da família, nível de instrução e condição de ocupação dos pais no momento do nascimento da criança são tão importantes para esses estudos.

Para a condução de estudos dessa natureza, idealmente utilizam-se dados que acompanhem os mesmo indivíduos ao longo do tempo, permitindo observar diferentes características da mesma pessoa ao longo de amplo período de tempo. No Brasil, uma base de dados dessa natureza – chamada na literatura acadêmica de “painel” – foi feita pelo Centro de Epidemiologia da Universidade de Pelotas (UFPel) e acompanhou, por meio de 9 entrevistas,  5.249 indivíduos desde o seu nascimento até os 18 anos.

Nossa análise ilustra a transmissão da desigualdade entre as gerações. Ao examinar os dados vemos que, já no nascimento, as crianças cujas mães tinham um baixo nível de escolaridade (0 a 4 anos completos de estudo) apresentavam diferenças em relação àquelas cujas mães eram muito escolarizadas. Essas crianças apresentaram peso e comprimento menores daquelas de mães mais escolarizadas, inclusive apresentando uma elevada taxa de nascimento abaixo do peso (13% contra 4% das crianças com mãe com ensino superior). Essas mesmas medidas antropométricas se mostraram menores nas crianças de ambientes desfavorecidos até os 11 anos. Se olharmos para a renda domiciliar, vemos que as famílias cujas mães completaram o ensino superior tinham uma renda quase 7 vezes maior no momento do nascimento do que as menos escolarizadas. Ou seja, de forma grosseira, podemos afirmar que essas famílias tinham quase 7 vezes mais recursos para gastar na educação e saúde de seus filhos.

Essas condições desfavoráveis para o desenvolvimento infantil parecem estar associadas com um desempenho escolar comparativamente pior. O gráfico abaixo mostra os anos completos de escolaridade dos jovens aos 11, 15 e 18 anos para cada um dos grupos analisados.

anoscompletos

Fonte: Dados da Coorte 1993 – Pelotas. Elaboração própria

Vemos que aos 18 anos, as crianças menos favorecidas apresentam 3 anos de escolaridade a menos do que aquelas mais favorecidas. O grande problema desse quadro é o fato de que essa diferença, além de se refletir em salários muito menores, irá gerar em média ambientes familiares com condições desiguais para os futuros filhos desses indivíduos, dando continuidade a esse mecanismo de transmissão de desigualdade entre gerações.