ARTIGO – Copom: ‘Insiders’ vs. ‘Outsiders’?

O Comitê de Política Monetária (Copom) é formado, pela primeira vez desde a adoção do regime de metas de inflação, basicamente por “insiders” – funcionários do Banco Central (BC), cinco dos sete atuais membros, e sem economistas de bancos privados, “outsiders”. Como o BC se compara a seus pares? Será esta composição adequada?

A experiência internacional é bastante diversificada. Por exemplo, o Banco da Inglaterra tem uma estrutura rígida com cinco “insiders” e quatro “outsiders” no seu comitê. Os “outsiders” podem exercer outra atividade profissional. Atualmente, somente um “outsider” veio de um banco privado. O comitê do Banco Central Europeu (BCE) é composto por 13 presidentes dos bancos centrais dos países membros, com um misto de funcionários de carreira ou não, e seis membros do comitê executivo, que normalmente não são carreiristas do BCE.

O Fed, o banco central americano, tem um comitê com 12 membros, sendo sete do “board of governors” e cinco presidentes dos Feds regionais. Dos atuais, 20% vêm de bancos privados, 50% de acadêmicos e há somente um “insider”. No Banco do Chile, nenhum membro é proveniente de banco privado, sendo 40% de “insiders”. Por fim, dos cinco membros do comitê do Banco do México, dois são provenientes de bancos privados e tem um “insider”.

‘Pode parecer que a composição do Comitê não seja relevante à inflação, mas não é o que a evidência mostra’

Apesar de terem estruturas diferentes, a expectativa de mercado é que todos os bancos centrais citados acima devem cumprir a meta de inflação para 2012. O Fed não trabalhava com um regime de metas de inflação até a última reunião, mas mantinha a tradição de perseguir uma baixa inflação.

Pode parecer que a composição dos comitês não é relevante para o resultado da inflação, mas não é isso que a evidência mostra.

No caso da Inglaterra, os “outsiders” tendem a discordar mais frequentemente da maioria, em geral com posição mais favorável ao corte dos juros, especialmente em momentos recessivos. Existem algumas explicações para este resultado. De um lado, “insiders” tem menor incentivo para discordar dos companheiros de instituição, pois a interação entre eles continuará por mais tempo. Por outro lado, os “outsiders” são escolhidos pelo executivo, têm um mandato mais curto e podem querer, como resultado, agradar o governo.

No caso do Fed, a evidência sugere que os membros com maior experiência no governo tendem a votar mais frequentemente para abaixar as taxas de juros, possivelmente para agradar o governo. Por fim, a evidência para os países mais ricos é que os “insiders” tendem a ter uma preferência por menor inflação, mesmo quando comparado aos acadêmicos. Essa maior aversão à inflação pode ser explicada pela preocupação em seguir os objetivos estabelecidos nos estatutos do banco ou talvez exista uma “autosseleção”, ou seja, o trabalho no banco central atrai profissionais mais conservadores.

Mesmo sem evidências para o caso brasileiro, algumas especulações podem ser feitas. Primeiro, pode ser um risco manter seguidamente Copom com membros majoritariamente “insiders”. A explicação é simples: caso se mantenha um importante diferencial nos salários da instituição e do mercado, os carreiristas podem ser atraídos pelo mercado ou talvez seja difícil para o BC conseguir atrair no futuro os melhores profissionais. Desta forma, o pool de profissionais competentes disponíveis para assumir o Copom ficaria reduzido, colocando em risco a qualidade.

Parece excessiva a atual participação de “insiders” no Copom (71%), como no passado já houve uma excessiva participação de economistas de mercado. Uma das grandes vantagens das decisões de política monetária serem feitas por um comitê, e não por um indivíduo, está relacionada aos benefícios da “heterogeneidade”: diferentes formas de pensar melhoram a qualidade das decisões. Experiência proveniente de profissionais de uma mesma origem restringe a base de conhecimento disponível para enfrentar problemas novos. Isso significa evitar “group-think”. Uma maior presença de economistas de mercado, e até de acadêmicos, pode evitar este problema.

As experiências mostram que profissionais do mercado podem contribuir de maneira significativa para a qualidade do trabalho dos bancos centrais. Pode parecer desnecessário esse comentário, mas ele responde a uma corrente que considera importante tornar o BC “independente do mercado”.

Por fim, é imprescindível que não haja a desconfiança de que o Copom queira agradar o executivo. Isso significa se preocupar um pouco menos com a inflação no curto prazo de forma a gerar alguns dividendos políticos momentaneamente com a maior atividade econômica. Nunca um novo governo democrático manteve o presidente do BC. Com a nova equipe, renova-se a desconfiança: será que a independência operacional será mantida? Como resultado, as expectativas de inflação sobem e o BC tem que ser mais austero para conseguir a mesma redução na inflação.

Os principais partidos políticos brasileiros (PT/PSDB) resistem em aprimorar o arcabouço institucional, de forma a mitigar essa desconfiança, dando a independência legal para o BC e mandatos fixos para os membros do Copom, alternados com o mandato presidencial. Ajustes na composição do Copom são desejáveis, mas a questão central é a eterna desconfiança.

Eduardo de Carvalho Andrade é professor do Insper, membro do CPP e Ph.D em economia pela Universidade de Chicago.  

Publicado no Valor Econômico em 26.01.2012