O anúncio, na última sexta-feira, da consolidação do acordo de associação entre Casas Bahia e Pão de Açúcar só reforça o movimento que a economia nacional vem presenciando nos últimos anos. "A competição gera a necessidade de desenvolver negócios mais eficazes e lucrativos, seja para atuar em diferentes setores, em diferentes regiões ou mesmo por sinergia de operações", diz Sílvio Laban, coordenador de MBA e professor de marketing do Insper. "O mercado vai continuar presenciando este movimento de fusões e aquisições, pois ainda há muito espaço para ser preenchido".
Mas os desafios que o novo grupo deverá enfrentar não são poucos. Com os detalhes da fusão resolvidos (leia texto ao lado), a nova companhia deve concentrar seus esforços para inovar o setor, diz Nuno Fouto, pesquisador do Programa de Administração do Varejo, da Fundação Instituto de Administração.
"Mesmo separadas, as empresas já tinham escala e o foco agora é para diferenciar-se dos demais ", afirma. "É preciso criar serviços novos para poder enfrentar a concorrência. O mais indicado seria investir na inovação, como seguros para bens duráveis com preços mais baixos que os cobrados atualmente", afirma o pesquisador, lembrando que o varejo trabalha com garantia estendida a preços pouco atrativos. Esta etapa e outros aspectos do modelo de negócios devem ser pensados a partir de agora. Até sexta-feira, a preocupação era selar o acordo anunciado há sete meses.
Na direção do mercado A tendência de fusões e aquisições vem ganhando a atenção das grandes redes de varejo e de investidores, inclusive os internacionais.
Entre janeiro e maio de 2010, foram anunciadas 303 transações de fusões e aquisições, um crescimento de 43% em relação ao ano anterior, de acordo com o relatório da consultoria Price Waterhouse Coopers.
Dentro deste cenário, o varejo faz parte de uma lista dos oito setores que mais participaram de transações, contabilizando 16 iniciativas no período do estudo, como a que foi feita por Insinuante e Ricardo Eletro, criando a Máquina de Vendas.
Três meses depois, os sócios anunciaram a união com a City Lar, somando mais 170 lojas à operação com500 unidades.
Quem também não quer ficar de fora na nova onda de consolidação é a Lojas Americanas. A empresa informou que está negociando a compra da carioca Casa & Vídeo, atualmente em recuperação judicial. Mas o movimento de fusões e aquisições no varejo não se resume a empresas ligadas ao comércio de eletroeletrônicos.
No mês passado, a Drogaria São Paulo comprou a Drogão e tirou a Pague Menos da liderança do ranking nacional.
Mesmo os empresários que ainda não pensam em vender suas lojas ou fazer associações admitem que a consolidação do setor é um caminho sem volta e começam a pensar em um futuro diferente para seus negócios.
O Supermercado Bahamas, de Minas Gerais, por exemplo, está profissionalizando sua gestão e audita seus balanços há dois anos. A rede deve alcançar faturamento de R$ 800 milhões este ano e está investindo para crescer. Tudo para que um dia, se a varejista tiver que ser vendida, que esteja bem valorizada.
No setor de supermercados sobraram poucas opções de aquisições. E empresas médias como Bahamas estão na mira dos líderes Pão de Açúcar, Carrefour e Walmart.
"Dívida de quase R$ 1 bi das Casas Bahia desaparece com acordo" O acordo assinado na última sexta-feira, entre Casas Bahia e Pão de Açúcar atendeu às exigências feitas pela família Klein, proprietária das Casas Bahia e, de quebra, sumiu com uma dívida de R$ 950 milhões que a empresa tinha. O montante, divulgado no dia do anúncio da fusão, em 4 de dezembro, foi quitado de acordo com Samuel Klein e Abílio Diniz.
Pelo novo acordo, os Klein ficam com 47% na Nova Casas Bahia (NCB), resultado da fusão com Ponto Frio, e o grupo Pão de Açúcar com 53%. Pão de Açúcar ainda entrará com aporte de R$ 689,8 milhões, sendo que R$ 89,8 milhões são referentes ao valor das lojas Extra Eletro - que no primeiro contrato estavam avaliadas em R$ 120 milhões - e o restante em certificado de depósito bancário (CBD).
A reclamação dos Klein quanto ao valor de Bahia e Globex, controladora do Ponto Frio, também foi resolvido. A Casas Bahia passa a ter valor contábil de R$ 1,47 bilhão e a Globex, de R$ 1,45 bilhão. Na negociação inicial, o Ponto Frio havia sido avaliado pelo valor de mercado de R$ 1,23 bilhão, apesar de ter patrimônio líquido de R$ 400 milhões. A Casas Bahia, mesmo tendo um patrimônio líquido de R$ 2,7 bilhões, entrava na sociedade valendo R$ 1,29 bilhão.
A maneira como a família Klein pode deixar a sociedade, outro impasse do primeiro contrato, também foi solucionada. Hoje, apenas 4,5% das ações da companhia estão em circulação no mercado. Esse percentual será ampliado em 20% dentro de 120 dias. Para colocar ainda mais ações no mercado, tanto Pão de Açúcar quanto Casas Bahia podem pedir uma oferta pública de ações (OPA) a partir do 11º mês. Caso não optem pela oferta, os Klein têm a possibilidade de, a partir do sexto ano, transformar sua parte da NCB em ações do grupo Pão de Açúcar ou, ainda, vender sua fatia para o Pão de Açúcar.
Fonte:
Jornal Brasil Econômico
Notícia de 05/07/2010