por Mariana Pinto
Crescimento e profissionalização são os dois fenômenos que talvez melhor resumam o momento vivido pelo setor de shopping centers no Brasil, nos últimos dez anos. A associação dessas características tem provocado mudanças significativas no processo de seleção e formação de profissionais para a área. Com 396 shopping centers já em operação e mais de 40 novos empreendimentos previstos para serem inaugurados até 2011, o mercado está à procura de gestores para grandes centros comerciais. E eles estão vindo das mais variadas áreas - como o mercado financeiro, engenharia, administração, comunicação social e marketing -, atraídos pelo desafio de atuarem em um ramo novo e com grande margem para transformações.
Com a expansão do mercado, empresas que antes eram apenas familiares hoje estão dando lugar a grandes grupos, como Sonae Sierra Brasil, Multiplan, JHSF Participações, Iguatemi, Ancar Ivanhoe e Brookfield, que têm administração profissionalizada, captam recursos em Bolsa de Valores e contam com cultura e valores próprios. Essa transformação tornou o campo de formação de novos profissionais bastante diversificado e complexo. E acompanhando este crescimento e necessidades de formações específicas a Abrasce criou em 2008 a área de educação.
`Logo que entrei na Abrasce fizemos uma pesquisa para identificar quais eram os temas e formatos de treinamentos mais atraentes para gestores de shopping. Não havia cursos para estes executivos e existia uma grande demanda por qualificação`, explica Fernanda Valenti, gerente da área de educação da Abrasce. De acordo com ela, em 2009, mais de mil profissionais da indústria de shoppings participaram de cursos, seminários e eventos voltados para o setor oferecidos pela associação. `Constatamos nessa pesquisa que entre as necessidades reclamadas pelos profissionais em primeiro lugar estava a gestão, em segundo a gestão de pessoas, em terceiro o marketing, em quarto operações de segurança e em quinto finanças. Com base nessas informações, começamos a pensar na organização de cursos para suprir essas demandas.`
Para Marcos Semenzim, diretor proprietário da Semma (Empresa de Shopping Center), é importante que o profissional busque conhecimento e atualização. `Antigamente, o profissional que trabalhava em shopping não tinha formação específica e ele ia aprendendo por tentativa e erro. Agora, somos a bola da vez, estamos crescendo e, para isso, temos de ter qualificação.` E esse crescimento é exponencial. De acordo com levantamento da Abrasce, em 2009 foram inaugurados 16 shoppings e 36 mil postos de trabalho. Hoje, o País tem 396 centros comerciais onde trabalham 760 mil pessoas. Para 2010, a previsão é de um faturamento acima de R$ 79 bilhões. São esperadas 21 inaugurações e a geração de mais de 50 mil vagas. Em 2011, está prevista a abertura de 22 complexos.
`Hoje, novos shoppings surgem muito rapidamente e a mão-de-obra qualificada não acompanha este crescimento. Há inúmeras vagas no mercado, mas não há quem as preencha`, explica Silvio Laban, coordenador de MBA do Insper, Instituto de Ensino e Pesquisa, e membro do conselho acadêmico do programa de pós-graduação Shopping Center Management, organizado em parceria com a Abrasce. `O curso oferece elementos fundamentais para o profissional. Nele, o aluno aprende sobre marketing, questões legais, jurídicas, sobre estratégia, planejamento em profundidade`.
Os especialistas têm observado o crescimento da demanda por novos executivos no setor desde 2005 e a tendência é de que esse movimento continue. A expansão da indústria de shoppings e os salários oferecidos estão entre os maiores fatores de atração. Em média, a faixa de remuneração vai de R$ 7 mil a R$ 20 mil mensais, dependendo do tamanho da operação e do tempo de serviço exigidos.
`A competitividade no segmento aumenta a busca por indivíduos capazes de liderar em contextos cada vez mais complexos, dinâmicos e incertos`, diz Laban. `É esperado que esses novos executivos mostrem capacidade para a resolução de problemas, com orientação a resultados.` Ele afirma que para brigar por uma vaga no mercado é necessário ter formação superior e experiência profissional acima de três anos. Uma pós-graduação no currículo também é visto como um diferencial. Além disso, as empresas querem que o profissional saiba identificar oportunidades de negócios e lidere suas equipes de forma motivadora. `Não é preciso ter experiência em outro shopping, mas é condição ter interesse e disposição para trabalhar no varejo.`
O Insper, em parceria com a Abrasce, ministra o curso de pós-graduação desde março de 2010. O Shopping Center Management Program tem carga horária presencial total de 360 horas e duração de 19 meses. A primeira turma irá se formar no próximo ano, segundo Laban. A maioria dos estudantes é de executivos do setor, com idade média de 36 anos, e 67% são homens. `Características como dinamismo, habilidade nos relacionamentos e capacidade de tomada de decisão também são importantes nos candidatos a gestor`, conclui.
`O profissional de hoje tem de pensar diferente em relação ao varejo e ao consumo`, define Luiz Alberto Marinho, professor do curso Intensivo de Marketing para Shopping Centers, promovido pela ESPM também em parceria com a Abrasce. `É preciso estar `ligado` nas tendências, nos hábitos dos consumidores, na relação entre o cliente e o shopping, por exemplo.` Segundo ele, profissionais do País inteiro vêm a São Paulo em busca das aulas. No ano passado, o curso da ESPM formou 65 alunos. O programa dura cinco dias e tem na grade aulas sobre marketing estratégico e comportamento do consumidor. As aulas têm como público-alvo os superintendentes e gestores de marketing, comercial, administrativa das áreas ou empresas administradoras de shoppings, além de executivos que buscam ampliar sua rede de contatos. O curso tem 40 horas/aula de duração.
Outra iniciativa para aperfeiçoar os profissionais do setor é a parceria entre Abrasce e ICSC (International Council of Shopping Centers), que promove, há três anos, o Curso John T. Riordan - Gestão de Shopping Centers. `Começamos em 2008. Hoje, estamos na terceira turma do nível 1 e na segunda do nível 2`, diz Fernanda Valenti. Durante cinco dias, os alunos têm uma programação com dez disciplinas, como administração, fi- nanças, operações, gestão de pessoas, mix de lojas, pesquisa de mercado e marketing, entre outras. `O nível 1 é destinado para quem acabou de entrar na indústria, e também para quem está interessado em obter uma visão geral de outras áreas de um shopping center; e o 2 é para quem quer aprimoramento.` O curso inclui ainda estudos de casos, trabalho em grupo e visita a um shopping center. `Os alunos analisam o empreendimento de perto, escutam os gestores, trocam informações e experiência`, conta Fernanda. De acordo com ela, a Abrasce estuda implantar o nível 3 no ano que vem, tendo como foco o design e a arquitetura. Neste ano as aulas ocorrerão de 8 a 12 de novembro, em São Paulo.
Para a Ancar Ivanhoe Shopping Centers, empresa com 16 empreendimentos nas cinco regiões do Brasil e faturamento de R$ 5,5 bilhões, o investimento no profissional começa cedo. A empresa mantém um programa de estágio e acredita na política de valorizar a prata da casa. `Na realidade estamos em franca expansão e resolvemos fazer o programa de estágios para suportar o crescimento da empresa`, explica Cícero Andrade, gerente de RH. Segundo ele, o foco principal é conseguir `gente jovem, qualificada, que queira aprender e crescer`. Cícero afirma que a Ancar valoriza as promoções internas. `Por isso precisamos de uma base sólida dentro da empresa, para podermos realizar essas promoções, o que é um grande incentivo para o profissional.`
As inscrições para o programa foram abertas em março e o processo seletivo está na fase final. Os candidatos enfrentam provas on-line de português, inglês, raciocínio lógico e conhecimentos gerais; dinâmicas de grupo e entrevistas com os gestores da empresa. `Este ano tivemos 25 vagas para 4.500 inscritos. Temos aproveitamento de 50% dos participantes do programa`, explica ele. Podem se inscrever alunos de administração, arquitetura, comunicação social, direito, economia, engenharia civil, engenharia de computação, engenharia elétrica, informática, marketing e psicologia. `A ideia é que mesmo que a empresa não aproveite todas as pessoas, ela forme um conceito de programa de estágio. Queremos que quem frequentou o programa saia daqui como um profissional formado, almejando até voltar em outra oportunidade`, conclui Andrade.